A Análise Experimental do Comportamento é o braço de pesquisa básica da ciência do comportamento. Ela não tenta, de imediato, resolver o problema de ninguém: tenta descobrir como o comportamento funciona, em condições de laboratório tão controladas que as explicações alternativas fiquem reduzidas ao mínimo. Reforço, extinção, esquemas, controle de estímulos — muito do que hoje aparece num plano de intervenção começou como uma pergunta de bancada. O que distingue essa área da Análise do Comportamento Aplicada não é a espécie estudada nem o lugar: é a pergunta. Uma delas busca princípios; a outra, soluções para problemas socialmente relevantes.
A Análise Experimental do Comportamento (AEC; em inglês experimental analysis of behavior, EAB) é o domínio de pesquisa básica da ciência do comportamento: investiga o comportamento em ambientes altamente controlados, com o objetivo de descobrir, ampliar e esclarecer os princípios fundamentais que governam a relação entre comportamento e ambiente. Fundada por B. F. Skinner a partir de The Behavior of Organisms (1938), consolidou um método próprio, marcado pelo estudo do organismo individual, pela medida repetida do responder, por comparações intrassujeito e pela análise visual dos dados. É um dos quatro domínios interligados da área, ao lado do behaviorismo radical (a filosofia), da Análise do Comportamento Aplicada (a pesquisa aplicada) e da prática profissional.
Quatro domínios, uma só ciência
Quem chega à análise do comportamento pela porta da clínica costuma conhecer apenas um pedaço dela. A área, no entanto, se organiza em quatro domínios que se alimentam uns aos outros. Pensar nisso como uma cadeia ajuda: a filosofia diz que tipo de explicação conta como explicação; a pesquisa básica descobre os princípios; a pesquisa aplicada verifica se esses princípios resolvem problemas da vida real; e a prática profissional entrega serviços informados por essa ciência — no atendimento de uma pessoa, mas também na consultoria a uma escola ou na formação de equipes.
A direção de cima para baixo é a mais fácil de contar como história, mas contá-la só nessa direção seria enganoso. O trânsito é de mão dupla: um impasse clínico — por que um comportamento que já tinha cessado voltou? Por que este reforçador perdeu o efeito? — vira pergunta de laboratório, e a resposta volta refinada para a aplicação. É esse vaivém que a área chama de pesquisa translacional.
O que acontece no laboratório
A imagem popular — um rato numa caixa — não está errada, só é incompleta. O arranjo típico é uma câmara experimental (a famosa “caixa de Skinner”) em que o animal pode operar um dispositivo, como uma barra ou um disco, e receber uma consequência programada. O detalhe decisivo não é a caixa: é o método do operante livre.
Em um procedimento de tentativas discretas, o pesquisador apresenta uma oportunidade, registra o acerto ou o erro e passa à próxima. No operante livre, não há tentativas: o sujeito pode responder quando quiser e quantas vezes quiser, e o que se mede é a taxa — quantas respostas por unidade de tempo. Essa escolha abriu caminho para ver o comportamento como algo que flui, acelerando e desacelerando conforme as consequências mudam.
O instrumento que tornou isso visível foi o registro cumulativo: um papel que corre a velocidade constante sob uma pena que sobe um degrau a cada resposta. O gráfico nunca desce, e por isso toda a informação está na inclinação — subida íngreme significa taxa alta; subida suave, taxa baixa; trecho horizontal, pausa.
Foi lendo registros como esses que Charles Ferster e Skinner escreveram Schedules of Reinforcement (1957), o catálogo que mostrou algo decisivo: mudar apenas a regra de entrega do reforço — e nada mais — já produz padrões de responder distintos, estáveis e replicáveis.
As marcas do método
A Análise Experimental do Comportamento desenvolveu um estilo de fazer pesquisa bem diferente do que predominava na psicologia experimental. Cinco escolhas o resumem:
- A taxa de respostas como dado básico. Em vez de perguntar “acertou ou errou?”, pergunta-se “com que frequência?” — uma medida contínua, sensível a mudanças pequenas. Veja dimensões de medida do comportamento.
- Medida repetida e contínua de classes de resposta claramente definidas, e não uma ou duas aferições antes e depois.
- Comparações intrassujeito. O sujeito é seu próprio controle: compara-se o mesmo organismo sob condições diferentes, em vez de comparar grupos de indivíduos distintos.
- Análise visual dos dados representados graficamente, no lugar de depender de testes de significância estatística — o efeito precisa aparecer no próprio gráfico.
- Descrever relações funcionais entre o comportamento e as variáveis do ambiente, mais do que testar teorias formais.
Esse método ganhou sistematização em Tactics of Scientific Research, de Murray Sidman (1960), e é a base metodológica de que a pesquisa aplicada partiu. A área também ganhou casa própria: a Society for the Experimental Analysis of Behavior, constituída em 1957, lançou no ano seguinte o Journal of the Experimental Analysis of Behavior (JEAB, 1958) — e, em 1968, criou o Journal of Applied Behavior Analysis (JABA), onde a pesquisa aplicada passou a publicar.
Experimental ou aplicada: o que separa de verdadeNão é a espécie, nem o jaleco, nem o lugar. Há pesquisa básica feita com pessoas e trabalho aplicado conduzido em arranjos análogos ao de laboratório. A diferença está na pergunta: a pesquisa experimental quer saber como o comportamento funciona; a aplicada quer mudar um comportamento socialmente relevante e demonstrar que foi ela a responsável pela mudança.
Por que ratos e pombos?
É a pergunta que todo mundo faz — e tem duas respostas, mais uma ressalva obrigatória:
Alguns processos atravessam as espécies
A aposta da área é que certos princípios básicos — comportamento seguido de consequência tende a mudar de frequência; retirar a consequência enfraquece o responder; sinais do ambiente passam a controlar quando responder — são processos biológicos amplos, não curiosidades de uma espécie só. Quando o mesmo efeito reaparece em espécies diferentes e também em pessoas, ganha-se confiança de que ali há um princípio, e não um acidente. Essa aposta tem limites, e cada extensão para uma nova espécie precisa ser demonstrada, nunca presumida.
Um grau de controle inalcançável fora do laboratório
Para afirmar que foi o reforço que mudou o comportamento, é preciso descartar tudo o mais. No laboratório, dá para padronizar a história experimental do organismo e manter constantes a iluminação, o horário, o nível de privação e o ambiente físico, variando uma coisa só. Com uma criança numa escola isso é impossível — e não deve ser tentado. É justamente por não poder controlar a vida das pessoas que a ciência precisa de um lugar onde o controle seja possível.
Pesquisa com animais é regulada por lei
No Brasil, o uso científico de animais é regido pela Lei nº 11.794/2008, a Lei Arouca. Ela criou o CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) e exige que toda instituição que crie ou use animais em ensino e pesquisa seja credenciada e tenha uma Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) — colegiado com veterinários, biólogos, docentes, pesquisadores e representantes de sociedades protetoras dos animais. A CEUA examina previamente os procedimentos e deve determinar a paralisação de qualquer procedimento em desacordo com a lei até que a irregularidade seja corrigida. Pesquisa com participantes humanos passa por sua própria apreciação ética, com consentimento informado.
Descobertas que saíram da bancada
Quatro exemplos de achados que nasceram em pesquisa básica e hoje organizam o modo de pensar da área. Toque nos cartões:
Cuidado com o atalhoUm princípio demonstrado no laboratório não é, por si só, uma prescrição clínica. Entre “pombos igualam respostas a reforços” e “faça isto com esta criança” existe um caminho obrigatório de pesquisa aplicada, replicação e avaliação de validade social. Desconfie de quem pula essa etapa — tanto de quem descarta a pesquisa básica como “coisa de rato” quanto de quem a usa para justificar qualquer procedimento.
A ponte: pesquisa translacional
Mace e Critchfield (2010) descreveram bem o risco que ronda os dois lados: a pesquisa puramente básica pode se desligar do mundo natural que pretende explicar, e a puramente aplicada pode se desligar dos processos fundamentais que a sustentam. A pesquisa translacional é a tentativa deliberada de costurar as duas — importando perguntas da aplicação para o laboratório e levando métodos e conceitos do laboratório para a clínica.
Os exemplos mais conhecidos da área seguem exatamente esse trajeto. A análise funcional de comportamentos desafiadores — cujo procedimento de referência foi descrito por Iwata e colaboradores em 1982 — transportou para o contexto clínico a lógica experimental de ligar e desligar condições para identificar a função de um comportamento. A economia de fichas aplica o que a pesquisa básica aprendeu sobre reforçadores condicionados — estímulos sem valor reforçador próprio, que passam a funcionar como reforço por sua associação com outros reforçadores, como a ficha que depois se troca por algo desejado. E a pesquisa sobre recaída usa procedimentos de laboratório para antecipar quando um ganho terapêutico corre risco de se desfazer.
Uma tradição também brasileira
A história da área no Brasil começa cedo. Em 1961, Fred S. Keller chegou como professor visitante à Universidade de São Paulo pelo programa Fulbright e, com Carolina Bori, Rodolpho Azzi e Myrthes Rodrigues do Prado, participou da montagem dos primeiros laboratórios de análise experimental do comportamento do país. Em agosto de 1964, na Universidade de Brasília, foi ministrado o primeiro curso de Análise Experimental do Comportamento no Brasil — e Carolina Bori se tornaria a principal força de difusão da área por aqui.
Essa semente deu origem a uma comunidade ativa: a ABPMC, a associação brasileira da área, fundada em 4 de novembro de 1991, realiza desde então o encontro anual considerado o maior fórum brasileiro de análise do comportamento e um dos maiores do mundo; e a Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), publicada pelo Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento da UFPA, em Belém, circula desde janeiro de 2005.
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Para saber mais
- Skinner, B. F. The Behavior of Organisms: An Experimental Analysis. Appleton-Century, 1938.
- Ferster, C. B. & Skinner, B. F. Schedules of Reinforcement. Appleton-Century-Crofts, 1957.
- Sidman, M. Tactics of Scientific Research: Evaluating Experimental Data in Psychology. Basic Books, 1960.
- Cooper, J. O., Heron, T. E. & Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed., Pearson, 2020 — cap. 1 (domínios da ciência do comportamento).
- Herrnstein, R. J. “Relative and absolute strength of response as a function of frequency of reinforcement”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 4, 267–272, 1961.
- Iwata, B. A., Dorsey, M. F., Slifer, K. J., Bauman, K. E. & Richman, G. S. “Toward a functional analysis of self-injury”. Analysis and Intervention in Developmental Disabilities, 2, 3–20, 1982 (reimpresso no Journal of Applied Behavior Analysis, 27, 197–209, 1994).
- Mace, F. C. & Critchfield, T. S. “Translational research in behavior analysis: Historical traditions and imperative for the future”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 93, 293–312, 2010.
- Brasil. Lei nº 11.794, de 8 de outubro de 2008 (Lei Arouca) — procedimentos para o uso científico de animais; institui o CONCEA e as CEUAs.
Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.