psychologyAnálise do Comportamento

Imitação e Aprendizagem por Observação

Boa parte do que sabemos fazer ninguém nos ensinou passo a passo: nós copiamos de alguém.

boltEm resumo

Imitar é reproduzir o que outra pessoa acabou de fazer. Tecnicamente, há imitação quando a resposta vem logo depois do modelo, tem a mesma forma dele e acontece porque o modelo apareceu. A aprendizagem por observação é mais ampla: quem observa aprende também com o que acontece com o outro — se deu certo ou não. E a melhor notícia para quem ensina: imitar é, ele próprio, um comportamento aprendido. Quando se generaliza, vira um atalho poderoso para aprender todo o resto.

Definição técnica

Na análise do comportamento (Cooper, Heron & Heward), um comportamento é imitativo quando reúne três condições: imediatismo — segue a apresentação do modelo em poucos segundos (por convenção, 3 a 5 s); similaridade formal — resposta e modelo se parecem fisicamente e estão na mesma modalidade sensorial; e o modelo como variável de controle — é a apresentação do modelo que evoca a resposta, e não uma instrução, o objeto ou outra contingência. Modelação (modeling) é o procedimento de apresentar o modelo. Já a aprendizagem por observação é o guarda-chuva maior: mudança no comportamento de quem observa em função de ver o que o outro faz e as consequências que aquilo produziu — o chamado reforço (ou punição) vicário. Aqui a mudança pode demorar a aparecer e nem sempre tem a mesma forma do que foi observado.

Três condições, não uma

No dia a dia, chamamos de “imitação” quase tudo que se parece com o que o outro fez. No uso técnico, o critério é mais estreito — e é isso que o torna útil para ensinar e para medir. Repare que as três condições falam de coisas diferentes: quando a resposta veio, como ela é e por causa de quê ela ocorreu.

MODELO ≤ 5 s IMITAÇÃO 1 logo depois vem em poucos segundos (3–5 s) 2 mesma forma a resposta se parece com o modelo 3 o modelo controla sem o modelo, não teria acontecido
Só há imitação, no sentido técnico, quando as três condições aparecem juntas. Se a criança bate palmas porque ouviu “bate palma!”, o controle é da instrução — não do modelo.

Vale uma ressalva de vocabulário: quando o modelo é vocal e a repetição tem correspondência ponto a ponto — alguém diz “água” e a criança diz “água” —, a análise do comportamento verbal chama isso de ecoico, e não de imitação motora. São primos próximos, com nomes diferentes. Veja comportamento verbal e operantes verbais.

Imitação, modelação e aprendizagem por observação

Os três termos costumam andar juntos na conversa, mas descrevem coisas distintas. Explore cada um:

Imitação — o comportamento de quem copia

É o comportamento em si: uma resposta imediata, parecida com o modelo e evocada por ele. É o que se observa e se registra. Um adulto levanta os braços; segundos depois, a criança levanta os braços. Se esse gesto não estava no repertório dela antes, o modelo acaba de ensinar algo — sem uma única instrução verbal.

Modelação — o procedimento de quem ensina

É o arranjo: apresentar o modelo de propósito para que outra pessoa aprenda. Pode ser ao vivo ou em vídeo, feita por um adulto, por um colega (modelação por pares) ou pela própria pessoa gravada acertando (auto-modelação em vídeo). Modelação é o que o ensinante faz; imitação é o que o aprendiz faz.

Aprendizagem por observação — o guarda-chuva

É o conceito mais amplo. Quem observa aprende não só o que o outro fez, mas o que aconteceu com ele: um colega é elogiado por levantar a mão e a turma passa a levantar a mão (reforço vicário); outro é repreendido e os demais evitam aquilo (punição vicária). A mudança pode aparecer horas ou dias depois, e nem sempre é uma cópia — às vezes o que se aprende é justamente não fazer.

O MODELO AGE Alguém faz algo e é observado A CONSEQUÊNCIA Dá certo para ele (reforço vicário) O OBSERVADOR Depois, ele tende a fazer o mesmo
Na aprendizagem por observação, a consequência que o outro recebe também ensina. Por isso elogiar publicamente um colega muda o comportamento de quem só estava assistindo.

Imitação generalizada: o atalho

Se cada gesto novo precisasse ser ensinado um a um, aprender seria lentíssimo. O que muda o jogo é a imitação generalizada: a pessoa passa a imitar modelos novos, que nunca foram treinados nem reforçados diretamente. A imitação deixa de ser um punhado de respostas soltas e vira uma classe de comportamento — “fazer o que o outro faz”.

Essa demonstração é antiga e clássica na análise do comportamento: Baer, Peterson e Sherman (1967) reforçaram sistematicamente a semelhança entre o comportamento de crianças e o de um modelo e observaram que elas passaram a imitar também modelos novos, sem reforço específico para aqueles gestos.

Por isso a imitação generalizada é o tipo de repertório que abre portas: uma vez instalado, a pessoa começa a aprender em situações que ninguém planejou — na fila do lanche, no parquinho, vendo o irmão. Ganhos assim, que colocam quem aprende em contato com muitas contingências novas de uma só vez, são o que a análise do comportamento chama de cusp comportamental (Rosales-Ruiz & Baer, 1997).

O que faz a observação “pegar”

Ver não é o bastante. Albert Bandura, na teoria da aprendizagem social, descreveu quatro processos que precisam estar presentes para que observar vire aprender. Toque nos cartões:

Como se ensina a imitar

Quando a imitação não está no repertório — o que é comum no começo do desenvolvimento e em parte das crianças autistas —, ela é ensinada diretamente, como qualquer outro comportamento. Um roteiro habitual:

  • Avaliar antes. Descobrir quais gestos a pessoa já faz e quais ela já imita, para separar o que é novo do que já existe.
  • Começar pelo mais fácil. Movimentos amplos e com objeto (bater na mesa, sacudir um chocalho) costumam ser mais simples do que gestos finos ou movimentos que a pessoa não consegue ver em si mesma, como tocar o próprio rosto.
  • Garantir o acerto com dicas. Uma ajuda física leve assegura a resposta certa logo de cara — e depois é retirada aos poucos, no esvanecimento, até sobrar só o modelo.
  • Reforçar. A resposta imitativa precisa produzir algo que valha a pena para aquela pessoa; veja reforço positivo.
  • Misturar o dominado com o novo. Alternar modelos já aprendidos com modelos novos mantém o ritmo de acertos alto e evita que a tarefa vire frustração.
  • Testar com modelos nunca treinados. Esse é o teste de verdade: imitar um gesto que jamais foi reforçado mostra que a classe generalizou. Veja generalização e manutenção.

Modelação em vídeo

Em vez de um modelo ao vivo, apresenta-se um vídeo curto de alguém executando a habilidade — pode ser outra pessoa, um colega ou a própria pessoa gravada nos seus melhores momentos (auto-modelação). O vídeo tem vantagens práticas: é sempre igual, pode ser revisto quantas vezes for preciso e permite enquadrar exatamente o que interessa.

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O que a evidência mostraA revisão do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (Steinbrenner et al., 2020) lista tanto a modelação quanto a modelação em vídeo entre as práticas baseadas em evidências para crianças, jovens e adultos jovens autistas. Uma metanálise anterior de estudos de caso único (Bellini & Akullian, 2007) já apontava efeitos favoráveis da modelação em vídeo e da auto-modelação sobre habilidades sociais, de comunicação e funcionais.

Dois cuidados

Imitação é uma ferramenta — e ferramentas não escolhem sozinhas o que fazem.

O primeiro: a imitação não seleciona o conteúdo. Quem imita copia o que está disponível, não o que é desejável. Crianças aprendem por observação tanto a dividir o brinquedo quanto a gritar — e adultos são modelos o tempo todo, principalmente quando não percebem que estão sendo observados. O estudo clássico de Bandura, Ross e Ross (1961), com o boneco João-bobo, mostrou que crianças que assistiram a um adulto agir de forma agressiva com o boneco reproduziram depois aquelas ações.

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O segundo: ensinar a imitar não é ensinar a disfarçarUma revisão sistemática de estudos sobre imitação de ações (Williams, Whiten & Singh, 2004) encontrou, no conjunto, desempenho menor em tarefas de imitação entre pessoas autistas — mas isso é uma média de grupo, não um destino individual: há pessoas autistas que imitam muito bem. E o objetivo de ensinar imitação nunca é fazer alguém “parecer normal” ou mascarar quem é. É ampliar o acesso à aprendizagem — dar mais um caminho para aprender o que a pessoa quiser aprender.

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Para saber mais

  1. Cooper, J. O., Heron, T. E. & Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson, 2020 — capítulo sobre imitação, modelação e aprendizagem por observação.
  2. Baer, D. M., Peterson, R. F. & Sherman, J. A. “The development of imitation by reinforcing behavioral similarity to a model”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 10(5), 405–416, 1967.
  3. Bandura, A., Ross, D. & Ross, S. A. “Transmission of aggression through imitation of aggressive models”. Journal of Abnormal and Social Psychology, 63(3), 575–582, 1961; e Bandura, A. Social Learning Theory. Prentice Hall, 1977.
  4. Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice, FPG Child Development Institute, University of North Carolina, 2020.
  5. Rosales-Ruiz, J. & Baer, D. M. “Behavioral cusps: a developmental and pragmatic concept for behavior analysis”. Journal of Applied Behavior Analysis, 30(3), 533–544, 1997.
  6. Bellini, S. & Akullian, J. “A meta-analysis of video modeling and video self-modeling interventions for children and adolescents with autism spectrum disorders”. Exceptional Children, 73(3), 264–287, 2007.
  7. Williams, J. H. G., Whiten, A. & Singh, T. “A systematic review of action imitation in autistic spectrum disorder”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 34(3), 285–299, 2004.
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Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.

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