A modelagem (em inglês, shaping) é a forma de ensinar um comportamento novo — que a pessoa ainda não faz — reforçando aproximações sucessivas: cada passo um pouquinho mais perto do objetivo. Em vez de esperar o comportamento final aparecer pronto (o que poderia nunca acontecer), reforça-se o que já existe de mais próximo e, aos poucos, eleva-se a exigência. É assim que um bebê sai do balbucio até a primeira palavra, ou que se aprende a nadar, escrever ou tocar um instrumento.
Em Análise do Comportamento Aplicada (Cooper, Heron & Heward), modelagem é o reforço diferencial de aproximações sucessivas de um comportamento-alvo, até que a pessoa passe a exibir esse comportamento. Combina dois processos: reforçar as respostas que se aproximam do alvo e colocar em extinção as aproximações anteriores, que já não bastam, à medida que o critério vai sendo elevado.
Por que “modelar”?
Alguns comportamentos simplesmente não ocorrem ainda — então não há como reforçá-los: o reforço só fortalece o que acontece. Se você esperasse uma criança que nunca falou dizer “água” perfeitamente para só então elogiar, poderia esperar para sempre. A modelagem resolve isso começando pelo que já existe: reforça-se a aproximação mais próxima disponível e, com ela firme, exige-se um pouco mais na vez seguinte.
O nome vem de uma boa imagem: o escultor não cria a estátua de uma vez — vai dando forma ao barro aos poucos, ajuste após ajuste. Na modelagem, cada reforço “molda” o comportamento um passo de cada vez, na direção do alvo.
A escada das aproximações sucessivas
Pense numa escada que sobe até o comportamento-alvo. Cada degrau é uma aproximação que, ao ficar estável, dá acesso ao degrau seguinte — sempre com reforço para “subir”:
Os dois ingredientes
Modelar não é “ir reforçando qualquer coisa”. São dois processos trabalhando juntos. Toque nos cartões:
Modelagem não é encadeamentoA modelagem constrói um comportamento novo, refinando-o passo a passo. O encadeamento é diferente: ele liga em sequência vários comportamentos que a pessoa já sabe fazer (como as etapas de escovar os dentes). Modelar dá forma; encadear conecta.
Modelar o quê? As dimensões
Nem sempre se molda a forma do comportamento. Dá para aproximar o alvo por várias dimensões diferentes — às vezes mais de uma ao mesmo tempo. Explore:
Topografia (a forma do movimento)
Modela-se o jeito de fazer. Ao aprender a escrever, a criança vai de rabiscos a traços, depois a letras toscas e, por fim, a letras legíveis. Cada versão um pouco mais parecida com a letra-alvo é reforçada.
Duração (quanto tempo dura)
Reforça-se permanecer na tarefa por períodos cada vez maiores. Começa-se com 1 minuto de atenção concentrada, depois 2, depois 5 — elevando o tempo exigido conforme a pessoa avança.
Frequência (quantas vezes)
Aproxima-se o alvo pelo número de respostas. Numa rotina de exercícios, reforça-se primeiro 5 repetições, depois 8, depois 12 — subindo a meta aos poucos.
Intensidade (com que força/amplitude)
Modela-se a magnitude da resposta — falar num volume audível, apertar com força suficiente, alongar um pouco mais a cada vez. Aproximações de intensidade crescente (ou decrescente) vão sendo reforçadas.
Um exemplo do dia a dia: a fala
A aquisição da fala é o exemplo clássico de modelagem que acontece naturalmente, sem ninguém planejar:
- o bebê balbucia sons quaisquer — e os adultos reagem com sorriso e atenção;
- aos poucos, sons parecidos com palavras (“ma-ma”, “a-gua”) recebem mais atenção do que balbucios genéricos;
- a exigência sobe: agora só “mamãe” ou “água” mais nítidos é que “funcionam” para conseguir o que a criança quer;
- até a palavra clara se firmar — e o ciclo recomeça com palavras novas.
O mesmo princípio aparece em terapia, na escola, no esporte e na reabilitação: sempre que se ensina algo que ainda não está no repertório, reforçar aproximações é o caminho. Veja também o reforço positivo, que é o motor de cada degrau.
O tamanho do passo importaPassos grandes demais deixam a pessoa “travada”, sem conseguir alcançar o critério — e o comportamento pode se perder por falta de reforço. Passos pequenos demais tornam o processo lento e arrastado. Achar o degrau certo, e subir só quando o atual está firme, é o que faz a modelagem funcionar.
De onde vem o conceitoA modelagem por aproximações sucessivas foi descrita por B. F. Skinner em experimentos clássicos (como ensinar um animal a executar uma ação nova) e é, até hoje, um procedimento central e bem estabelecido da Análise do Comportamento para construir repertórios novos.
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Para saber mais
- Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied Behavior Analysis (Análise do Comportamento Aplicada). 3ª ed., 2020 — capítulo sobre Modelagem (Shaping).
- Skinner, B. F. Ciência e Comportamento Humano. 1953.
- Catania, A. C. Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição. 4ª ed.
- Pryor, K. Don't Shoot the Dog: The New Art of Teaching and Training. Ed. rev., 1999.
Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.