Quando alguém aprende que a palavra falada “gato” combina com a figura de um gato e, depois, que “gato” combina com a palavra escrita GATO, costuma acontecer algo notável: a pessoa passa a relacionar a figura com a palavra escrita — sem que isso tenha sido ensinado. Relações que aparecem assim, de carona, são chamadas de emergentes (ou derivadas); quando os estímulos de um conjunto passam a funcionar como intercambiáveis, dizemos que se formou uma classe de equivalência. É um dos achados mais importantes da análise do comportamento, porque ajuda a explicar como a linguagem cresce muito além do que foi treinado — e permite ensinar menos para o aluno aprender mais.
Relações emergentes (ou derivadas) são relações entre estímulos que o aprendiz passa a exibir sem treino direto nem reforço específico, como subproduto do ensino de outras relações. Fala-se em equivalência de estímulos quando as relações entre os membros de um conjunto satisfazem as propriedades que definem uma relação de equivalência — reflexividade, simetria e transitividade —, verificadas por testes próprios depois do treino de discriminações condicionais (Sidman & Tailby, 1982). Os estímulos de uma mesma classe tornam-se mutuamente substituíveis: controlam respostas semelhantes e podem compartilhar funções adquiridas por qualquer um deles.
O achado: ensinei duas relações, apareceram outras
O procedimento básico é mais simples do que o nome sugere. Ele se chama pareamento ao modelo (em inglês, matching-to-sample): apresenta-se um modelo — por exemplo, a palavra falada “gato” — e, em seguida, duas ou mais opções de escolha (as comparações). Escolher a opção certa na presença daquele modelo é reforçado; escolher outra, não. Como o acerto depende de qual modelo apareceu, o que se ensina ali é uma discriminação condicional: a resposta correta é condicional ao contexto. Cada relação ensinada desse jeito forma a linha de base do treino.
Em 1971, Murray Sidman descreveu um estudo que se tornou o marco da área. Um jovem com deficiência intelectual já conseguia duas coisas: nomear figuras e escolher a figura correspondente a uma palavra ditada. O que ele não fazia era ler palavras impressas com compreensão. Sidman então ensinou apenas uma relação nova — escolher a palavra impressa correspondente à palavra ditada. Ao ser testado depois, o jovem relacionou figuras e palavras impressas entre si, nos dois sentidos, embora ninguém tivesse ensinado essa combinação. Compreensão de leitura havia emergido como efeito colateral do treino.
Os quatro testes que se aplicam
Não basta observar que “apareceu algo novo”. Para afirmar que se formou uma classe de equivalência, Sidman e Tailby (1982) mostraram que é preciso testar — e testar sem reforço, para que o teste não vire treino disfarçado. São três as propriedades que definem uma relação de equivalência; o quarto cartão é o teste que verifica duas delas ao mesmo tempo. Toque para ver:
Por que emprestar palavras da matemática? Porque a ideia de “ser equivalente” já tinha definição precisa: em matemática, uma relação é de equivalência se for reflexiva, simétrica e transitiva. Sidman e Tailby propuseram levar esse rigor para o laboratório — em vez de supor que o aluno “entendeu o significado”, define-se exatamente quais testes ele precisa passar. É o oposto de adivinhar o que se passa na cabeça de alguém.
Ensinar menos para aprender mais
Aqui está o motivo pelo qual professores e terapeutas se interessam pelo tema. Imagine uma classe com três estímulos (A, B e C). Entre eles existem seis relações possíveis com direção definida: A→B, B→A, A→C, C→A, B→C e C→B. Se você ensinar apenas duas delas (A→B e A→C), as outras quatro podem emergir: duas por simetria (B→A e C→A) e duas pelo teste combinado (B→C e C→B).
- Ensinado: 2 relações, com reforço, até o aluno acertar com consistência.
- Testado (sem reforço): 4 relações novas, que apareceram “de graça”.
- Resultado: uma classe de três estímulos intercambiáveis — e o efeito cresce rápido quando se acrescentam mais membros.
Esse raciocínio deu origem ao que hoje se chama ensino baseado em equivalência (EBI, na sigla em inglês): planejar quais poucas relações ensinar para que muitas outras emerjam. Uma metanálise de Brodsky e Fienup (2018) reuniu estudos de EBI no ensino superior, com conteúdos acadêmicos variados, e concluiu que a abordagem é eficaz para produzir esse tipo de aprendizagem. No Brasil, o caso mais conhecido é a alfabetização: o programa de ensino de leitura e escrita desenvolvido por Julio de Rose, Deisy de Souza e colaboradores, na UFSCar, combina o paradigma de equivalência com a aprendizagem por exclusão e a tarefa de construir a palavra com letras móveis — o que ajudou crianças não leitoras a ler também palavras novas, nunca ensinadas no programa.
Onde isso aparece na práticaAlfabetização e leitura com compreensão; ensinar que ½, 0,5 e 50% são a mesma quantidade; relacionar palavra falada, figura, palavra escrita e sinal em comunicação alternativa; vocabulário de um segundo idioma; e ensino de conteúdo acadêmico complexo. Em todos esses casos, o alvo não é decorar pares — é formar classes, para que o aluno lide com combinações que a aula não cobriu.
Três desdobramentos importantes
A equivalência não é só uma curiosidade de laboratório: ela tem consequências clínicas e teóricas. Explore cada uma:
O que um membro ganha, os outros herdam
Membros de uma mesma classe não compartilham só a “escolha certa”: compartilham funções. Se um estímulo da classe passa a eliciar medo, a ser reforçador ou a sinalizar perigo, os demais tendem a adquirir esse papel sem terem passado pela experiência. Num experimento clássico, Dougher e colaboradores (1994) formaram duas classes de quatro membros cada e, em seguida, parearam um só membro de uma delas com um estímulo aversivo. Medida pela condutância da pele, a resposta condicionada apareceu também diante dos outros membros daquela classe, na maioria dos participantes.
É por isso que uma palavra, um nome ou uma lembrança podem provocar reações intensas sem nunca terem sido associados diretamente a nada ruim — um mecanismo útil para entender ansiedade, esquiva e o poder do que dizemos a nós mesmos.
Relações que não são de “igualdade”
A equivalência trata de uma relação específica: a de ser o mesmo que. Mas a linguagem humana relaciona coisas de muitos outros jeitos — maior que, oposto de, diferente de, antes de, melhor que. A Teoria das Molduras Relacionais (RFT, de Hayes, Barnes-Holmes e Roche, 2001) propõe tratar esse responder relacional como um operante generalizado: algo que se aprende com muitos exemplares ao longo da vida e passa a ser aplicado a estímulos arbitrários, inclusive em relações que não a de igualdade.
A RFT é a base teórica da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e dialoga diretamente com o estudo do comportamento verbal e do comportamento governado por regras.
Emergência não é mágica nem garantia
Relações emergentes são um resultado provável em certas condições — não um automatismo. É comum que apareçam só depois de testes repetidos (um fenômeno descrito como emergência retardada), e parte dos aprendizes — especialmente crianças pequenas ou com atrasos de desenvolvimento — pode não exibir simetria ou equivalência numa primeira avaliação.
Quando isso acontece, a saída não é insistir no teste: é ensinar. O caminho usual é o treino com múltiplos exemplares — praticar a relação nos dois sentidos com vários conjuntos de estímulos diferentes, até que o responder derivado se generalize para conjuntos novos. Em outras palavras, a capacidade de derivar relações também pode ser construída.
Cuidado com o atalho“Emergir sem ensino direto” não significa “sem ensino nenhum”. A linha de base precisa estar bem estabelecida, os testes precisam ser feitos sem reforço (senão você estaria treinando e não testando) e os resultados precisam ser medidos aluno por aluno. Nenhum programa sério promete que uma criança “aprenderá sozinha” a partir de duas lições — o que a pesquisa mostra é como planejar o ensino para aproveitar aquilo que o aprendiz consegue derivar.
Teste seu entendimento
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Para saber mais
- Sidman, M. “Reading and auditory-visual equivalences”. Journal of Speech and Hearing Research, 14, 5–13, 1971.
- Sidman, M.; Tailby, W. “Conditional discrimination vs. matching to sample: an expansion of the testing paradigm”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37, 5–22, 1982.
- Sidman, M. “Equivalence relations and behavior: an introductory tutorial”. The Analysis of Verbal Behavior, 25, 5–17, 2009.
- Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson, 2020 — cap. 19, “Equivalence-based Instruction” (Carol Pilgrim), e cap. 20, sobre relações de não equivalência.
- de Rose, J. C.; de Souza, D. G.; Hanna, E. S. “Teaching reading and spelling: exclusion and stimulus equivalence”. Journal of Applied Behavior Analysis, 29, 451–469, 1996.
- Brodsky, J.; Fienup, D. M. “Sidman Goes to College: a meta-analysis of equivalence-based instruction in higher education”. Perspectives on Behavior Science, 41, 95–119, 2018.
- Dougher, M. J.; Augustson, E.; Markham, M. R.; Greenway, D. E.; Wulfert, E. “The transfer of respondent eliciting and extinction functions through stimulus equivalence classes”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 62, 331–351, 1994.
- Hayes, S. C.; Barnes-Holmes, D.; Roche, B. (orgs.). Relational Frame Theory: a Post-Skinnerian Account of Human Language and Cognition. Plenum Press, 2001.
Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.