psychologyAnálise do Comportamento

Contingências de Grupo

Uma regra valendo para a turma inteira — e as três formas de arranjar isso, cada uma com seus cuidados.

boltEm resumo

Em vez de combinar uma coisa com cada criança, a professora combina uma única regra para a turma: “se tal coisa acontecer, tal consequência vem”. Esse arranjo é uma contingência de grupo, e ele pode ser montado de três maneiras bem diferentes — cada aluno respondendo só pelo que fez (independente), todos dependendo do resultado coletivo (interdependente) ou o grupo todo dependendo do desempenho de um colega (dependente). É um recurso barato, prático e com boa base de pesquisa, especialmente no formato do Jogo do Bom Comportamento. Também é o arranjo que exige mais cuidado ético: mal planejado, ele transforma colega em culpado.

Definição técnica

Uma contingência de grupo (ou contingência orientada ao grupo) é um arranjo em que uma única contingência — um mesmo requisito de resposta e uma mesma consequência — está em vigor para um conjunto de pessoas, em vez de ser programada individualmente para cada uma. O que define o tipo de arranjo não é o fato de o procedimento ser aplicado “em grupo”, mas de quem é o comportamento que produz a consequência e para quem ela é entregue. Litow e Pumroy (1975) organizaram esses sistemas em três categorias — independente, interdependente e dependente —, classificação que segue sendo a referência da área.

Mesma regra, três arranjos diferentes

Imagine a mesma combinação anunciada em três salas: “quem terminar a tarefa de leitura com 80% de acertos ganha quinze minutos de jogo”. Parece uma regra só, mas o que acontece depois depende de um detalhe pouco visível — quem precisa cumprir para que alguém receba. É exatamente esse detalhe que separa os três tipos.

Independente prêmio individual dois cumpriram, dois receberam Interdependente critério coletivo todos cumpriram, todos receberam Dependente um pelo grupo um cumpriu, todos receberam
Os três arranjos descritos por Litow e Pumroy (1975). Repare que só muda quem produz e quem recebe — o prêmio pode ser exatamente o mesmo nos três casos. No arranjo independente, o “grupo” é apenas administrativo: na prática, cada aluno tem a sua própria contingência.

Toque nos cartões para ver como cada arranjo funciona na prática — e o que ele tende a produzir:

Vale guardar uma distinção que confunde muita gente: aplicar um procedimento para um grupo não faz dele uma contingência de grupo no sentido técnico. Trinta crianças recebendo cada uma a sua economia de fichas individual, lado a lado na mesma sala, continuam sob trinta contingências separadas. O que caracteriza o arranjo é o vínculo entre o comportamento de alguns e a consequência de todos.

O Jogo do Bom Comportamento

O exemplo mais estudado de contingência de grupo nasceu em uma sala de quarta série, em 1969. Barrish, Saunders e Wolf dividiram a turma em duas equipes “para jogar um jogo”. Duas regras simples: não sair do lugar e não falar fora da vez. Cada episódio desses rendia uma marca no quadro para a equipe do aluno. A equipe que terminasse abaixo do limite combinado ganhava privilégios já disponíveis na escola — recreio extra, ser a primeira a sair para o almoço, tempo para projetos especiais, estrelas e crachás. O detalhe mais importante: as duas equipes podiam ganhar ao mesmo tempo. Não era uma competição em que alguém precisava perder. Sair do lugar e falar fora da vez caíram de forma acentuada.

Daí vem o título do artigo original, que resume bem o mecanismo: contingências individuais para consequências de grupo. Cada aluno responde pelo que faz, mas o resultado chega à equipe — um arranjo interdependente. O jogo se espalhou porque é barato, exige pouco treinamento e usa reforçadores que a escola já tem.

  • Regras poucas e observáveis. “Falar fora da vez” pode ser contado; “ser respeitoso” não. Vale revisar o verbete de definição operacional.
  • Equipes, não indivíduos. O placar é da equipe, o que dilui a exposição de quem erra mais.
  • Critério alcançável. O limite de marcas precisa ser possível para a turma que você tem hoje, não para a turma ideal.
  • Mais de um ganhador. Quando todas as equipes podem vencer, o jogo deixa de premiar quem torce pelo erro do outro.

Uma variação positiva ficou conhecida como Caught Being Good Game — o “jogo de ser pego fazendo o certo”. Em vez de marcar violações, o professor marca pontos para os comportamentos desejados que observa. A lógica da contingência é a mesma; muda o que o adulto fica procurando na sala — e, com ele, o clima do procedimento. É um ajuste coerente com o que se sabe sobre reforço positivo e com a preferência, na prática ética, por procedimentos que constroem repertório em vez de só suprimi-lo (Wright & McCurdy, 2012).

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O que a pesquisa mostra — e onde ela é mais modestaNos estudos de caso único, os efeitos do jogo são consistentes: uma metanálise de 21 estudos com 1.580 alunos, da pré-escola ao ensino médio, encontrou efeito forte sobre comportamento (TauU = 0,82; Bowman-Perrott et al., 2016), e outra revisão de 22 estudos estimou efeito médio (d ≈ 0,50; Flower et al., 2014). Numa replicação em cinco turmas de pré-escola, o comportamento disruptivo caiu de médias de 13, 5, 4, 7 e 8 respostas por minuto para 2, 1, 1, 2 e 1 (Donaldson et al., 2011). Já a metanálise restrita a ensaios randomizados — 7 estudos, cerca de 4.700 crianças — encontrou efeitos bem menores (g entre 0,09 e 0,32): houve diferença em favor do jogo para problemas de conduta (tanto na avaliação dos colegas quanto na dos professores) e para comportamento retraído na avaliação dos colegas, mas não para desatenção nem para o comportamento retraído avaliado pelos professores (Smith et al., 2021). A leitura honesta é esta: funciona, é muito útil para manejo de sala, e não é a intervenção transformadora que as manchetes sugerem.

Há ainda o capítulo mais ambicioso dessa literatura. A partir do ano escolar de 1985–86, em Baltimore, turmas de primeiro e segundo ano foram sorteadas para jogar ou não o jogo, e os alunos foram acompanhados por mais de uma década. No seguimento aos 19–21 anos, o grupo que havia jogado apresentou taxas menores de transtornos por uso de drogas e álcool, tabagismo regular, transtorno de personalidade antissocial e ideação suicida (Kellam et al., 2008). Dois cuidados antes de transformar isso em promessa: os efeitos se concentraram nos meninos — especialmente nos que eram mais agressivos no primeiro ano — e, entre as meninas, quase não apareceram; e trata-se de um estudo em uma cidade, com coortes específicas. É um resultado notável, não uma garantia individual.

O lado delicado: quando o grupo vira pressão

Amarrar a consequência de muitos ao comportamento de alguns produz um efeito colateral previsível: os colegas passam a se interessar pelo que cada um faz. Isso pode ser ótimo — e pode descambar. Explore os três pontos que mais aparecem na literatura e na prática:

Culpa, hostilidade e sabotagem

São quatro problemas documentados em arranjos interdependentes. O primeiro é a hostilização do colega que “fez o grupo perder” — e, quando esse colega é sempre o mesmo, o procedimento vira um amplificador de exclusão. O segundo é a sabotagem: um aluno pode descobrir que estragar a chance do grupo é a forma mais eficiente de conseguir atenção. O terceiro é mais silencioso: alunos que trabalhariam melhor param no critério mínimo, porque é o que basta para o prêmio sair. O quarto é a desistência — quando o limite já foi estourado, não há mais nada a preservar no resto do dia.

Há ainda um risco de leitura dos dados. Um critério coletivo como “a média da turma” pode esconder o aluno que não melhorou — ou que piorou — atrás de um resultado agregado bonito. Quando existe uma preocupação individual, ela precisa do seu próprio registro.

Ajustes que mudam o resultado

  • Aleatorizar os componentes. Sortear qual comportamento, qual critério e qual prêmio valem — revelando só depois — é a solução mais estudada. Ela reduz a sabotagem e o trabalho no mínimo, porque ninguém sabe o que está sendo cobrado nem quando já “não vale mais a pena” (Popkin & Skinner, 2003).
  • Manter o alvo anônimo nos arranjos dependentes: se o grupo não sabe de quem depende o prêmio, a pressão não tem endereço.
  • Combinar o critério com a linha de base. Um limite impossível garante o fracasso; vale consultar a linha de base antes de escolher o número.
  • Regra explícita sobre cobrar o colega. Hostilizar, ameaçar ou culpar não entra no jogo — e isso precisa ser dito, não suposto.
  • Não retirar o que já foi conquistado. Prêmio ganho é ganho; o próximo período começa do zero.
  • Oferecer uma alternativa individual para quem ainda não consegue atingir o critério coletivo, em paralelo ao sistema da turma.

Nem só de escola vive o arranjo

Contingências de grupo aparecem em muitos outros contextos. Em ambientes de trabalho, bônus por meta de equipe e placares coletivos são contingências interdependentes — e os mesmos efeitos colaterais costumam reaparecer ali, inclusive a cobrança entre colegas e o esforço calibrado no mínimo necessário. Em programas de saúde, metas coletivas já foram usadas para aumentar atividade física de crianças em sala (Kuhl et al., 2015). Em casa, o “se todos estiverem prontos até as oito, a gente para na sorveteria” é a mesma estrutura.

Um achado prático merece nota: em um estudo com professores aplicando o jogo em um contexto restritivo, houve redução substancial do comportamento-problema mesmo com baixa integridade de implementação (Joslyn & Vollmer, 2020). Isso não autoriza aplicar de qualquer jeito — mas sugere alguma tolerância a imperfeições de aplicação, o que ajuda a explicar a popularidade do procedimento.

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Contingência de grupo não é castigo coletivoA diferença não é de grau, é de natureza. O castigo coletivo pune todos por um ato de um, sem acordo prévio, sem critério claro e sem caminho para o acerto. Uma contingência de grupo bem montada é combinada antes, tem critério alcançável e explícito, entrega consequências positivas e prevê o que fazer quando o critério não é atingido. Se, na prática, o resultado é um aluno sendo responsabilizado pela frustração da turma, o procedimento está errado — e a saída é mudar o arranjo, não cobrar mais da criança. Esse é um ponto de ética profissional, não de preferência de estilo.

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Para saber mais

  1. Litow, L.; Pumroy, D. K. “A brief review of classroom group-oriented contingencies”. Journal of Applied Behavior Analysis, 8, 341–347, 1975.
  2. Barrish, H. H.; Saunders, M.; Wolf, M. M. “Good behavior game: effects of individual contingencies for group consequences on disruptive behavior in a classroom”. Journal of Applied Behavior Analysis, 2, 119–124, 1969.
  3. Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson, 2020 — cap. 28, “Token Economy, Group Contingencies, and Contingency Contracting”.
  4. Joslyn, P. R.; Donaldson, J. M.; Austin, J. L.; Vollmer, T. R. “The Good Behavior Game: a brief review”. Journal of Applied Behavior Analysis, 52, 811–815, 2019.
  5. Donaldson, J. M.; Vollmer, T. R.; Krous, T.; Downs, S.; Berard, K. P. “An evaluation of the Good Behavior Game in kindergarten classrooms”. Journal of Applied Behavior Analysis, 44, 605–609, 2011.
  6. Bowman-Perrott, L.; Burke, M. D.; Zaini, S.; Zhang, N.; Vannest, K. “Promoting positive behavior using the Good Behavior Game: a meta-analysis of single-case research”. Journal of Positive Behavior Interventions, 18, 180–190, 2016.
  7. Flower, A.; McKenna, J. W.; Bunuan, R. L.; Muething, C. S.; Vega, R. “Effects of the Good Behavior Game on challenging behaviors in school settings”. Review of Educational Research, 84, 546–571, 2014.
  8. Smith, S.; Barajas, K.; Ellis, B.; Moore, C.; McCauley, S.; Reichow, B. “A meta-analytic review of randomized controlled trials of the Good Behavior Game”. Behavior Modification, 45, 641–666, 2021.
  9. Kellam, S. G. et al. “Effects of a universal classroom behavior management program in first and second grades on young adult behavioral, psychiatric, and social outcomes”. Drug and Alcohol Dependence, 95 (supl. 1), S5–S28, 2008.
  10. Wright, R. A.; McCurdy, B. L. “Class-wide positive behavior support and group contingencies: examining a positive variation of the Good Behavior Game”. Journal of Positive Behavior Interventions, 14, 173–180, 2012.
  11. Popkin, J.; Skinner, C. H. “Enhancing academic performance in a classroom serving students with serious emotional disturbance: interdependent group contingencies with randomly selected components”. School Psychology Review, 32, 271–284, 2003.
  12. Joslyn, P. R.; Vollmer, T. R. “Efficacy of teacher-implemented Good Behavior Game despite low treatment integrity”. Journal of Applied Behavior Analysis, 53, 465–474, 2020.
  13. Kuhl, S.; Rudrud, E. H.; Witts, B. N.; Schulze, K. A. “Classroom-based interdependent group contingencies increase children’s physical activity”. Journal of Applied Behavior Analysis, 48, 2015.
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Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.

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