assignmentAvaliação e Medidas

Avaliação de Preferências

Descobrir o que a pessoa realmente gosta — com método, e não por achismo.

boltEm resumo

A avaliação de preferências é um conjunto de procedimentos para identificar, de forma sistemática, quais itens e atividades uma pessoa prefere — e o quanto prefere cada um. Serve para encontrar bons candidatos a reforçador antes de começar um ensino ou uma intervenção. Ela pode ser feita perguntando (entrevistas), observando (acesso livre aos itens) ou testando (escolhas em ensaios organizados). Um detalhe que muita gente confunde: item preferido é uma aposta informada, não um reforçador comprovado — isso só o teste com contingência mostra.

Definição técnica

Em Análise do Comportamento Aplicada, avaliação de preferências (stimulus preference assessment) designa os procedimentos usados para identificar quais estímulos a pessoa prefere, o valor relativo desses estímulos (preferência alta, média ou baixa), as condições sob as quais esse valor se altera — por exemplo quando mudam a exigência da tarefa ou o esquema de reforçamento — e quanto a pessoa se esforça para ter acesso a eles. O produto da avaliação é uma hierarquia de preferências: uma lista ordenada de candidatos a reforçador (Cooper, Heron & Heward).

Por que não basta perguntar “do que ele gosta?”

A pergunta é um bom começo, mas é um começo frágil. Em um estudo clássico, Green e colaboradores (1988) compararam a opinião da equipe que cuidava de sete pessoas com deficiência profunda com uma avaliação sistemática de preferências feita a partir das respostas de aproximação de cada pessoa aos itens. Os dois métodos não coincidiram: o que a equipe supunha ser preferido não correspondia ao que a avaliação sistemática identificava. E, num segundo experimento com cinco participantes, os estímulos identificados como preferidos pela avaliação sistemática tipicamente funcionaram como reforçadores quando entregues de forma contingente em programas de treino de habilidades.

Isso não significa que pais, professores e cuidadores estejam “errados” — eles conhecem a pessoa e são a melhor fonte para montar a lista inicial de candidatos. O que o estudo mostra é que essa lista precisa ser conferida com a pessoa, e não assumida como verdade.

Preferência não é reforçador

Dizer que um item é “preferido” descreve uma escolha. Dizer que ele é reforçador é uma afirmação bem mais forte: significa que, entregue logo depois de um comportamento, ele aumenta a frequência desse comportamento. A avaliação de preferências identifica candidatos; quem confirma é a avaliação de reforçadores — um teste em que o item é entregue de forma contingente e se observa o efeito nos dados. Veja reforço positivo.

Perguntar Observar Testar Hierarquia de preferências candidatos a reforçador, em ordem Teste de reforçador entregar de forma contingente e medir Reforçador confirmado
Perguntar, observar e testar são portas de entrada complementares. Todas levam a uma hierarquia de candidatos — mas só o teste com entrega contingente confirma que o item é, de fato, um reforçador para aquela pessoa.

Três caminhos: perguntar, observar, testar

Não existe um método único “melhor”. A escolha depende de quanto tempo há, de como a pessoa se comunica e de quão precisa a resposta precisa ser. Toque nas abas para conhecer cada caminho:

Métodos indiretos: entrevistas e questionários

Conversa-se com a própria pessoa (sempre que possível) e com quem convive com ela. Um instrumento bastante usado é o RAISD (Reinforcer Assessment for Individuals with Severe Disabilities, de Fisher, Piazza, Bowman & Amari, 1996): uma entrevista estruturada que percorre categoria por categoria, pedindo detalhes concretos: itens táteis, auditivos, visuais e olfativos, comestíveis e estímulos sociais.

  • Forte: é rápido, não exige material e produz uma lista rica de candidatos que ninguém de fora imaginaria.
  • Limite: depende da memória e da interpretação de quem responde; serve para gerar a lista, não para ordená-la.

Observação em operante livre

Espalha-se um conjunto de itens e a pessoa tem acesso livre e não contingente a todos eles: nada é pedido, nada é retirado. Registra-se a duração do engajamento com cada item. Roane e colaboradores (1998) avaliaram uma versão breve desse formato, com sessões de cinco minutos em que os itens nunca eram retirados, e conseguiram identificar itens diferencialmente preferidos.

  • Forte: é o formato mais confortável — não há escolha forçada, nem itens tirados da mão, nem espera. Boa opção para quem reage mal a demandas.
  • Limite: a pessoa pode ficar presa ao primeiro item que pegou, e itens que dependem de outra pessoa — atenção, brincadeira conjunta — podem ficar sub-representados.

Ensaios estruturados de escolha

Os itens são apresentados em ensaios organizados e registra-se o que a pessoa seleciona ou de que ela se aproxima. A proporção de escolhas gera a hierarquia. É a família que produz a ordenação mais detalhada — e a que exige mais tempo e preparo. Os quatro formatos clássicos aparecem nos cartões abaixo.

  • Forte: produz uma ordenação clara e comparável, útil para planejar ensino e para acompanhar mudanças ao longo do tempo.
  • Limite: envolve retirar itens e esperar entre ensaios, o que pode ser incômodo; e exige que a pessoa consiga escolher entre opções.

Os quatro formatos de ensaio

Toque nos cartões para ver como cada formato funciona e o que a pesquisa mostrou sobre ele:

Ensaio 1 — escolhe C A B C D E Ensaio 2 — C saiu, escolhe D A B D E Ensaio 3 — C e D saíram, escolhe A A B E
No MSWO, cada escolha retira o item do conjunto. Ensaio após ensaio, a ordem em que os itens vão sendo escolhidos desenha a hierarquia de preferências — aqui, C em primeiro, D em segundo, A em terceiro.
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Por que o MSWO é tão práticoDeLeon e Iwata (1996) compararam os três formatos de apresentação — escolha pareada, múltiplos com reposição e múltiplos sem reposição — com sete participantes. O MSWO produziu correlações de ordem moderadas a altas com a escolha pareada e identificou um número semelhante de reforçadores, mas levou menos da metade do tempo de administração. Além disso, alguns estímulos escolhidos no formato pareado e no MSWO — mas ignorados no formato com reposição — funcionaram como reforçadores nos testes seguintes.

Preferência é uma fotografia, não um retrato definitivo

Este é o ponto que mais escapa na prática do dia a dia: o resultado de uma avaliação de preferências vale para aquele momento. A preferência é um fenômeno em boa parte transitório, e a pesquisa sobre estabilidade indica que os itens de alta preferência tendem a se manter mais estáveis, mas as escolhas podem variar mesmo entre aplicações sucessivas do MSWO (Melanson e colaboradores, 2023). Daí a recomendação prática de reavaliar com frequência — uma aplicação breve de MSWO antes de cada sessão, por exemplo, evita a armadilha de insistir num item que já perdeu a graça.

Há duas razões diferentes para a preferência mudar, e vale distinguir:

  • Mudança momentânea. A criança que acabou de tomar suco não quer mais suco. Isso é operação motivadora em ação: privação e saciação alteram o valor de um reforçador agora, minuto a minuto.
  • Mudança duradoura. Interesses se desenvolvem, idades passam, repertórios crescem. O brinquedo que era o favorito há seis meses pode ter sido simplesmente superado.

Por isso a avaliação de preferências não é uma etapa que se “cumpre” no início do plano: é uma prática recorrente, integrada ao registro e à coleta de dados.

Como fazer bem — e o que evitar

  • Varie as categorias. Comestíveis são convenientes e saciam rápido. Inclua também brinquedos, atividades, música, vídeos, materiais sensoriais e — sobretudo — interações sociais: cócegas, cantar junto, elogio, brincadeira de perseguição.
  • Escolha o formato pela pessoa, não pelo hábito. Quem se irrita quando um item é retirado tende a render melhor no operante livre. Quem escolhe bem entre opções aproveita o MSWO.
  • Use a medida certa. Para itens que se pega e solta, conta-se a seleção. Para itens de engajamento contínuo — um tablet, um quebra-cabeça —, a medida informativa é a duração do envolvimento.
  • Feche o ciclo com um teste. Depois da hierarquia, verifique nos dados se o item de fato aumenta o comportamento. Sem esse passo, você tem uma preferência, não um reforçador.
  • Trate a escolha como voz. Oferecer opções de verdade é uma forma concreta de respeitar a autonomia de quem ainda não fala ou fala pouco, e sustenta o trabalho baseado em assentimento.
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Cuidados que não são negociáveisA avaliação existe para servir à pessoa, não ao procedimento. Não inclua itens inseguros ou contraindicados, não transforme a sessão em uma sequência longa de itens tirados da mão, e interrompa se a pessoa demonstrar incômodo — sinais de desconforto são dado, não obstáculo. Identificar um item como preferido também não autoriza usá-lo como moeda de troca para privar a pessoa de algo a que ela tem direito.

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Para saber mais

  1. Cooper, J. O., Heron, T. E. & Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson, 2020 — capítulo sobre reforçamento positivo e avaliação de preferências.
  2. Green, C. W., Reid, D. H., White, L. K., Halford, R. C., Brittain, D. P. & Gardner, S. M. “Identifying reinforcers for persons with profound handicaps: staff opinion versus systematic assessment of preferences”. Journal of Applied Behavior Analysis, 21(1), 31–43, 1988.
  3. Pace, G. M., Ivancic, M. T., Edwards, G. L., Iwata, B. A. & Page, T. J. “Assessment of stimulus preference and reinforcer value with profoundly retarded individuals”. Journal of Applied Behavior Analysis, 18(3), 249–255, 1985.
  4. Fisher, W., Piazza, C. C., Bowman, L. G., Hagopian, L. P., Owens, J. C. & Slevin, I. “A comparison of two approaches for identifying reinforcers for persons with severe and profound disabilities”. Journal of Applied Behavior Analysis, 25(2), 491–498, 1992.
  5. DeLeon, I. G. & Iwata, B. A. “Evaluation of a multiple-stimulus presentation format for assessing reinforcer preferences”. Journal of Applied Behavior Analysis, 29(4), 519–533, 1996.
  6. Roane, H. S., Vollmer, T. R., Ringdahl, J. E. & Marcus, B. A. “Evaluation of a brief stimulus preference assessment”. Journal of Applied Behavior Analysis, 31(4), 605–620, 1998.
  7. Fisher, W. W., Piazza, C. C., Bowman, L. G. & Amari, A. “Integrating caregiver report with a systematic choice assessment” (instrumento RAISD). American Journal on Mental Retardation, 101, 15–25, 1996.
  8. Windsor, J., Piché, L. M. & Locke, P. A. “Preference testing: a comparison of two presentation methods”. Research in Developmental Disabilities, 15(6), 439–455, 1994.
  9. Melanson, I. J., Thomas, A. L., Brodhead, M. T., Sipila-Thomas, E. S., Miranda, D. R. G., Plavnick, J. B., Joy, T. A., Fisher, M. H. & White-Cascarilla, A. N. “An evaluation of preference stability within MSWO preference assessments for children with autism”. Journal of Applied Behavior Analysis, 56(3), 638–655, 2023.
  10. Hagopian, L. P., Long, E. S. & Rush, K. S. “Preference assessment procedures for individuals with developmental disabilities”. Behavior Modification, 28(5), 668–677, 2004.
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Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.

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