Uma operação motivadora (OM) é qualquer mudança no ambiente que faz um reforçador valer mais ou valer menos naquele momento — e, ao mesmo tempo, faz aumentar ou diminuir a frequência dos comportamentos que já renderam esse reforçador. Ficar horas sem comer torna a comida mais valiosa e faz a pessoa procurar comida: é uma operação estabelecedora (OE). Sair da mesa depois de um almoço farto faz o contrário: é uma operação abolidora (OA). A OM não explica o que a pessoa sabe fazer; explica por que ela faz agora.
Uma operação motivadora é uma variável ambiental que produz dois efeitos simultâneos. O efeito de alteração de valor: ela aumenta ou diminui a eficácia reforçadora (ou punidora) de algum estímulo, objeto ou evento. E o efeito de alteração de comportamento: ela altera a frequência atual de todo comportamento que, no passado, foi reforçado por aquele estímulo. Quando o valor sobe, temos uma operação estabelecedora (OE), com efeito evocativo (mais comportamento agora); quando o valor cai, temos uma operação abolidora (OA), com efeito abativo (menos comportamento agora).
Dois efeitos, sempre juntos
É tentador pensar em motivação como algo que a pessoa “tem dentro”. A análise do comportamento faz uma pergunta mais útil: o que mudou no ambiente para que aquele reforçador ficasse mais (ou menos) importante agora? Privação, saciação, dor, cansaço, calor, um pedido difícil — todos são eventos observáveis que mexem no valor das consequências.
Repare que os dois efeitos andam de mãos dadas. Ficar sem beber água a tarde inteira não só faz a água “valer mais”: faz você levantar, procurar o bebedouro, pedir um copo — qualquer comportamento que já tenha produzido água. Depois de beber, o valor desaba e todos esses comportamentos somem por um tempo.
OE e OA: os dois sentidos da mesma variável
Toda operação motivadora empurra para um lado ou para o outro. Explore os dois:
Aumenta o valor → evoca o comportamento
A OE torna algo mais reforçador e, por isso, faz subir a frequência de todo comportamento que já produziu aquilo (efeito evocativo).
- Uma noite mal dormida aumenta o valor de descansar — e a criança se joga no sofá, chora mais fácil, evita tarefas longas.
- Uma sala barulhenta aumenta o valor do silêncio — e sair da sala vira uma consequência muito desejável.
- Ficar sem atenção por bastante tempo aumenta o valor da atenção — e comportamentos que costumam chamar o adulto aparecem mais.
Diminui o valor → reduz o comportamento
A OA torna algo menos reforçador e, por isso, faz cair a frequência dos comportamentos que o produziam (efeito abativo).
- Depois de brincar bastante com o tablet, oferecer mais tablet como recompensa funciona muito menos.
- Um analgésico eficaz reduz o valor de “fazer a dor parar” — e os comportamentos de fuga da dor diminuem.
- Uma criança que acabou de receber muita atenção do adulto tende, por um tempo, a insistir menos por atenção.
Uma observação de vocabulário: você ainda vai encontrar textos que chamam tudo de “operação estabelecedora”. O termo mais amplo operação motivadora, com o par OE/OA e os efeitos evocativo e abativo, foi proposto por Michael e consolidado por Laraway, Snycerski, Michael e Poling (2003), e é o padrão adotado hoje nos manuais da área.
Não confunda com estímulo discriminativoOs dois são antecedentes e os dois podem evocar comportamento — mas por motivos diferentes. O estímulo discriminativo (SD) sinaliza que o reforço está disponível; a operação motivadora muda o quanto aquele reforço vale para a pessoa naquele momento. A máquina de café acesa avisa que dá para tirar um café (SD); ter passado a noite acordado é o que faz o café valer a pena (OM). Foi justamente essa distinção que Jack Michael formalizou, em 1982, ao separar as funções discriminativa e motivacional dos estímulos.
De onde vem esse valor
Algumas operações motivadoras não precisam ser aprendidas: são incondicionadas (OMI), ligadas à biologia — privação de alimento, de água, de sono, de oxigênio, de atividade, de contato sexual, ficar quente ou frio demais, e o aumento de estimulação dolorosa (que torna reforçador tudo o que faz a dor parar). Outras são condicionadas (OMC): adquirem seu efeito por aprendizagem. Toque nos cartões:
Por que isso muda a prática
Operações motivadoras são a parte do ABC que costuma passar despercebida — e que, quando entendida, permite prevenir em vez de apenas reagir.
- Pedidos (mandos). Em Verbal Behavior (1957), Skinner definiu o mando como o operante verbal que está sob controle de uma operação motivadora: pede-se água quando a água está valendo. Por isso, ensinar alguém a pedir só funciona de verdade quando o item ensinado importa naquele momento — daí a importância da comunicação funcional ser treinada em situações reais de motivação.
- Avaliação de comportamentos desafiadores. Na análise funcional, as condições de teste manipulam justamente OMs: privação de atenção, apresentação de demandas, retirada de itens preferidos. É isso que faz a função do comportamento aparecer de forma clara.
- Intervenções antecedentes. Oferecer atenção com frequência antes que ela “falte”, dar acesso prévio a um item, ajustar a dificuldade de uma tarefa, cuidar do sono, da fome e do ambiente sensorial: tudo isso opera como operação abolidora, reduzindo o valor do reforçador que mantinha o comportamento difícil — sem depender de consequências.
- Escolha de reforçadores. Nenhum reforçador é eterno. Variar itens e evitar a saciação mantém o ensino eficaz — o mesmo adesivo que animava na segunda-feira pode não dizer nada na sexta.
Uma boa pergunta para o dia a diaAntes de perguntar “como faço para ele parar?”, vale perguntar: o que está fazendo isso valer tanto agora? Fome, sono ruim, barulho, dor, tédio, tempo demais sem atenção, uma tarefa longa demais. Muitas crises se dissolvem quando a operação motivadora é cuidada — e não quando a consequência é endurecida.
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Para saber mais
- Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson, 2020 (capítulo sobre operações motivadoras).
- Michael, J. “Distinguishing between discriminative and motivational functions of stimuli”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 1982.
- Laraway, S.; Snycerski, S.; Michael, J.; Poling, A. “Motivating operations and terms to describe them: some further refinements”. Journal of Applied Behavior Analysis, 2003.
- Skinner, B. F. Verbal Behavior. Nova York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
- Moreira, M. B.; Medeiros, C. A. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.