psychologyAnálise do Comportamento

Operações Motivadoras

Por que o mesmo pão vale muito às onze da manhã e quase nada logo depois do almoço.

boltEm resumo

Uma operação motivadora (OM) é qualquer mudança no ambiente que faz um reforçador valer mais ou valer menos naquele momento — e, ao mesmo tempo, faz aumentar ou diminuir a frequência dos comportamentos que já renderam esse reforçador. Ficar horas sem comer torna a comida mais valiosa e faz a pessoa procurar comida: é uma operação estabelecedora (OE). Sair da mesa depois de um almoço farto faz o contrário: é uma operação abolidora (OA). A OM não explica o que a pessoa sabe fazer; explica por que ela faz agora.

Definição técnica

Uma operação motivadora é uma variável ambiental que produz dois efeitos simultâneos. O efeito de alteração de valor: ela aumenta ou diminui a eficácia reforçadora (ou punidora) de algum estímulo, objeto ou evento. E o efeito de alteração de comportamento: ela altera a frequência atual de todo comportamento que, no passado, foi reforçado por aquele estímulo. Quando o valor sobe, temos uma operação estabelecedora (OE), com efeito evocativo (mais comportamento agora); quando o valor cai, temos uma operação abolidora (OA), com efeito abativo (menos comportamento agora).

Dois efeitos, sempre juntos

É tentador pensar em motivação como algo que a pessoa “tem dentro”. A análise do comportamento faz uma pergunta mais útil: o que mudou no ambiente para que aquele reforçador ficasse mais (ou menos) importante agora? Privação, saciação, dor, cansaço, calor, um pedido difícil — todos são eventos observáveis que mexem no valor das consequências.

Repare que os dois efeitos andam de mãos dadas. Ficar sem beber água a tarde inteira não só faz a água “valer mais”: faz você levantar, procurar o bebedouro, pedir um copo — qualquer comportamento que já tenha produzido água. Depois de beber, o valor desaba e todos esses comportamentos somem por um tempo.

Valor do alimento como reforçador tempo refeição OE — privação vale mais, e a pessoa procura comida OA — saciação vale menos, e ela para de procurar
O reforçador é o mesmo o tempo todo — o que muda é o quanto ele vale agora. Privação faz o valor subir (OE); saciação faz o valor cair (OA). E o comportamento acompanha a curva.

OE e OA: os dois sentidos da mesma variável

Toda operação motivadora empurra para um lado ou para o outro. Explore os dois:

Aumenta o valor → evoca o comportamento

A OE torna algo mais reforçador e, por isso, faz subir a frequência de todo comportamento que já produziu aquilo (efeito evocativo).

  • Uma noite mal dormida aumenta o valor de descansar — e a criança se joga no sofá, chora mais fácil, evita tarefas longas.
  • Uma sala barulhenta aumenta o valor do silêncio — e sair da sala vira uma consequência muito desejável.
  • Ficar sem atenção por bastante tempo aumenta o valor da atenção — e comportamentos que costumam chamar o adulto aparecem mais.

Diminui o valor → reduz o comportamento

A OA torna algo menos reforçador e, por isso, faz cair a frequência dos comportamentos que o produziam (efeito abativo).

  • Depois de brincar bastante com o tablet, oferecer mais tablet como recompensa funciona muito menos.
  • Um analgésico eficaz reduz o valor de “fazer a dor parar” — e os comportamentos de fuga da dor diminuem.
  • Uma criança que acabou de receber muita atenção do adulto tende, por um tempo, a insistir menos por atenção.

Uma observação de vocabulário: você ainda vai encontrar textos que chamam tudo de “operação estabelecedora”. O termo mais amplo operação motivadora, com o par OE/OA e os efeitos evocativo e abativo, foi proposto por Michael e consolidado por Laraway, Snycerski, Michael e Poling (2003), e é o padrão adotado hoje nos manuais da área.

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Não confunda com estímulo discriminativoOs dois são antecedentes e os dois podem evocar comportamento — mas por motivos diferentes. O estímulo discriminativo (SD) sinaliza que o reforço está disponível; a operação motivadora muda o quanto aquele reforço vale para a pessoa naquele momento. A máquina de café acesa avisa que dá para tirar um café (SD); ter passado a noite acordado é o que faz o café valer a pena (OM). Foi justamente essa distinção que Jack Michael formalizou, em 1982, ao separar as funções discriminativa e motivacional dos estímulos.

De onde vem esse valor

Algumas operações motivadoras não precisam ser aprendidas: são incondicionadas (OMI), ligadas à biologia — privação de alimento, de água, de sono, de oxigênio, de atividade, de contato sexual, ficar quente ou frio demais, e o aumento de estimulação dolorosa (que torna reforçador tudo o que faz a dor parar). Outras são condicionadas (OMC): adquirem seu efeito por aprendizagem. Toque nos cartões:

Por que isso muda a prática

Operações motivadoras são a parte do ABC que costuma passar despercebida — e que, quando entendida, permite prevenir em vez de apenas reagir.

  • Pedidos (mandos). Em Verbal Behavior (1957), Skinner definiu o mando como o operante verbal que está sob controle de uma operação motivadora: pede-se água quando a água está valendo. Por isso, ensinar alguém a pedir só funciona de verdade quando o item ensinado importa naquele momento — daí a importância da comunicação funcional ser treinada em situações reais de motivação.
  • Avaliação de comportamentos desafiadores. Na análise funcional, as condições de teste manipulam justamente OMs: privação de atenção, apresentação de demandas, retirada de itens preferidos. É isso que faz a função do comportamento aparecer de forma clara.
  • Intervenções antecedentes. Oferecer atenção com frequência antes que ela “falte”, dar acesso prévio a um item, ajustar a dificuldade de uma tarefa, cuidar do sono, da fome e do ambiente sensorial: tudo isso opera como operação abolidora, reduzindo o valor do reforçador que mantinha o comportamento difícil — sem depender de consequências.
  • Escolha de reforçadores. Nenhum reforçador é eterno. Variar itens e evitar a saciação mantém o ensino eficaz — o mesmo adesivo que animava na segunda-feira pode não dizer nada na sexta.
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Uma boa pergunta para o dia a diaAntes de perguntar “como faço para ele parar?”, vale perguntar: o que está fazendo isso valer tanto agora? Fome, sono ruim, barulho, dor, tédio, tempo demais sem atenção, uma tarefa longa demais. Muitas crises se dissolvem quando a operação motivadora é cuidada — e não quando a consequência é endurecida.

operação estabelecedora (OE) operação abolidora (OA) efeito evocativo efeito abativo privação e saciação mando

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Para saber mais

  1. Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. Applied Behavior Analysis. 3ª ed. Pearson, 2020 (capítulo sobre operações motivadoras).
  2. Michael, J. “Distinguishing between discriminative and motivational functions of stimuli”. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 1982.
  3. Laraway, S.; Snycerski, S.; Michael, J.; Poling, A. “Motivating operations and terms to describe them: some further refinements”. Journal of Applied Behavior Analysis, 2003.
  4. Skinner, B. F. Verbal Behavior. Nova York: Appleton-Century-Crofts, 1957.
  5. Moreira, M. B.; Medeiros, C. A. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
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Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.

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