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O que perguntar ao profissional

Dez perguntas para levar à primeira conversa — e como reconhecer uma boa resposta em cada uma.

boltEm resumo

Você não precisa saber a resposta certa. Precisa saber se a resposta faz sentido — se ela dá nome às coisas, se combina uma meta que dá para verificar e se admite a possibilidade de o plano estar errado. As perguntas abaixo cabem numa folha e servem para qualquer serviço, em qualquer abordagem, procurando para você mesmo ou para alguém de quem você cuida. E vale prestar atenção não só ao que a equipe responde, mas a como ela recebe a pergunta: desconforto com ela já é informação.

Quase todo mundo chega à primeira conversa com a mesma sensação: a de que deveria saber mais para poder perguntar alguma coisa. Não é assim que funciona. Nenhuma das perguntas desta página exige que você conheça pesquisa, método ou estatística — elas foram feitas justamente para quem não é da área e, mesmo assim, vai participar de todas as decisões. Valem igual para quem procura para si mesmo e para quem procura para um filho ou para alguém de quem cuida; onde a pergunta muda de forma nos dois casos, o texto traz as duas versões.

Elas também não dependem da área nem da abordagem: servem para uma psicoterapia de ansiedade, para o tratamento de uma depressão, para o plano de uma criança autista, para o apoio a um adolescente com TDAH que está indo mal na escola ou para um acompanhamento de luto. E onde estiver escrito “a equipe” — ou “vocês” —, leia “quem vai atender”: pode ser um profissional sozinho, numa terapia individual, ou o grupo inteiro que se reúne em volta de um plano.

O critério também é mais simples do que parece. Você não precisa julgar se a resposta está tecnicamente correta; precisa perceber se ela é concreta: se tem nome, prazo, número, responsável e data. Respostas concretas podem ser conferidas depois. Respostas vagas não podem — e é essa a diferença que importa na hora.

Há ainda um segundo dado, que aparece antes mesmo da resposta: a reação à pergunta. Quem trabalha com evidência tende a receber bem esse tipo de conversa: são, no fundo, as mesmas perguntas que o profissional precisa responder para si mesmo antes de escrever um plano. Quando a pergunta incomoda, o incômodo costuma dizer mais do que a frase que vem depois dele.

LEVAR PARA A CONVERSA 4 das 10 Quais práticas — e por que essas? Qual é a meta em três meses? Como vamos saber se está funcionando? O que eu faço entre as sessões?
A ficha não serve para avaliar ninguém — serve para você não esquecer, no meio da conversa, justamente a pergunta que mais importava. Levar por escrito muda a conversa: uma pergunta lida em voz alta costuma receber uma resposta mais cuidadosa do que uma pergunta improvisada quando o horário já está acabando.

Antes de começar

Estas são as perguntas da primeira conversa — as que definem se existe um plano ou apenas uma intenção. Em cada uma, o texto descreve como é uma boa resposta; toque para abrir.

Quais práticas vocês vão usar, e por que essas?

Uma boa resposta dá nome às coisas. Ela cita práticas com nome próprio — ativação comportamental, exposição gradual, reestruturação cognitiva, treino de habilidades sociais, apoios visuais, análise de tarefa, orientação a pais — e liga cada nome a um objetivo que vocês combinaram. Os nomes mudam de acordo com a área e a abordagem; o que não muda é existirem nomes. Depois vem o raciocínio: por que essa e não outra, o que foi considerado e descartado, o que já foi observado neste caso que sustenta a escolha. Se a sua procura é por autismo, os nomes que uma equipe citar podem ser conferidos um a um nas práticas com evidência para autismo — é a área deste módulo com a lista mais completa até aqui.

Uma resposta que não informa costuma soar assim: “trabalhamos de forma eclética, adaptada a cada pessoa”. Não é mentira, e pode até ser dita de boa-fé — mas descreve uma postura, não um plano. Também é perfeitamente legítimo ouvir “ainda não sei dizer, preciso de mais algumas semanas de avaliação”: isso é honesto, desde que venha com uma data em que o plano será escrito e apresentado a você.

Se quiser uma pergunta de acabamento, é esta: “para qual resultado, exatamente, essa prática foi escolhida?” — porque prática e objetivo são coisas diferentes, e é o encaixe entre as duas que faz o plano.

Quem treinou a equipe nessa prática, e como vocês checam se está sendo aplicada do jeito certo?

Esta é a pergunta da fidelidade — o quanto a prática está sendo aplicada como foi descrita e testada. Uma boa resposta é concreta em três pontos: quem observa, com que frequência e o que acontece quando a aplicação sai do combinado. Roteiro escrito do procedimento, observação direta de sessões, lista de checagem preenchida por outra pessoa, supervisão com data marcada: qualquer uma dessas respostas mostra que existe um mecanismo.

Você não está pedindo diplomas na parede nem fiscalizando ninguém. Está perguntando se alguém, além de quem aplica, olha para o que está sendo feito. Uma resposta como “todo mundo aqui é treinado” não é necessariamente má-fé — é a informação de que aquele serviço provavelmente não mede isso. E não medir tem uma consequência prática: se o plano não andar, ninguém saberá dizer se a prática não serviu ou se ela nunca chegou a ser aplicada. A página sobre as dificuldades para usar evidência na prática detalha esse ponto.

Quantas sessões por semana, por quanto tempo, e quem vai atender?

Uma boa resposta traz números e nomes: a frequência, a duração prevista até a primeira revisão, quem estará na sala e quem supervisiona. E deixa claro o que é decisão técnica e o que é limite prático — agenda, custo, distância —, porque misturar as duas coisas atrapalha a decisão de quem escolhe.

Vale saber de onde vem a dificuldade aqui: as listas de práticas com evidência dizem quais práticas se sustentam, mas não dizem a dose, a duração, o formato nem por quem. Isso é decidido caso a caso, pela equipe junto com quem vai ser atendido — e com a família, quando ela participa da decisão. Por isso mesmo merece estar escrito no plano, e não combinado de boca. Uma equipe que responde “depende” está certa; o que falta é a segunda metade da frase: depende de quê, e quando isso será revisto.

Sobre o plano

Aqui a conversa deixa de ser sobre método e passa a ser sobre o que vai mudar na vida da pessoa atendida — e sobre quem decide o que conta como melhora.

Qual é a meta em três meses, escrita de um jeito que dá para verificar?

Uma boa resposta cabe numa frase que duas pessoas diferentes leriam do mesmo jeito. “Sair de casa para a caminhada combinada em pelo menos quatro dos sete dias da semana, marcado no caderninho” é uma meta. “Pedir água apontando ou entregando o cartão, sem chorar, em pelo menos duas das três refeições do dia” também é. As duas descrevem um comportamento observável, um contexto e um critério. “Melhorar a comunicação”, “ficar menos ansioso” e “desenvolver autonomia” são intenções — ninguém discorda delas, e é exatamente por isso que não servem para acompanhar nada. A Enciclopédia chama esse cuidado de definição operacional.

Junto da meta, duas coisas precisam ser combinadas antes de começar: o prazo e o critério de sucesso — o que, exatamente, vai contar como “deu certo”. Critério definido depois do resultado não é critério; é torcida. E peça o plano por escrito, ainda que sejam poucas linhas num e-mail. Não é formalidade: é o que permite, daqui a três meses, todo mundo lembrar a mesma coisa.

Atenção a um detalhe que passa despercebido: meta escrita não é promessa. A equipe está dizendo o que vai perseguir e como vai medir, não garantindo que chegará lá.

Como a minha opinião — ou a de quem eu acompanho — entra nas metas?

Quando quem procura é você mesmo, as metas são suas — e mesmo aí a resposta precisa descrever procedimento, não boa vontade: em que momento o profissional devolve a lista de metas para você conferir, o que ele faz quando você diz que uma delas não é prioridade, e com que frequência isso é revisto. Metas combinadas na primeira sessão e nunca mais mencionadas viram, na prática, metas do profissional.

Quando quem vai ser atendido é uma criança — ou alguém que não consegue dizer em palavras o que quer —, a pergunta continua valendo; só muda o caminho. Uma boa resposta descreve como a equipe oferece escolhas dentro da sessão, o que observa quando a pessoa procura, aceita, evita ou recusa alguma coisa, e como isso volta para a definição das metas. Perguntar diretamente, quando é possível, é o caminho mais curto — e mesmo com quem não fala, preferência aparece no comportamento o tempo todo. O verbete sobre consentimento e assentimento explica a diferença entre a autorização que os responsáveis dão e a concordância que a própria pessoa demonstra.

Há um teste útil para as metas propostas, nos dois casos: essa meta melhora a vida dela, ou só a deixa mais parecida com as outras pessoas? Metas que existem apenas para reduzir o que incomoda quem olha de fora — inclusive movimentos repetitivos que servem para a pessoa se regular — merecem uma segunda conversa. Uma meta que a própria pessoa não reconhece como sua costuma custar caro para todo mundo, e costuma durar pouco.

Sobre o acompanhamento

São as duas perguntas mais desconfortáveis de fazer e as mais úteis de ter respondido — porque tratam da hipótese de que o plano combinado não funcione.

Como vocês vão saber se está funcionando — e o que acontece se não estiver?

Uma boa resposta tem quatro elementos: qual dado será olhado, quem registra, com que frequência e em que data vocês vão sentar para ver o que ele mostra. “Em quantos dias da semana você pegou o ônibus sem descer antes da parada” é um dado; para quem acompanha uma criança, “quantas vezes ela pediu alguma coisa sozinha, no jantar, ao longo da semana” também é. Os dois cabem numa nota do celular ou num papel na porta da geladeira. “Está melhorando” é uma impressão, e impressões não se acompanham: elas acompanham o humor de quem observa.

A segunda metade da pergunta é a que separa as respostas. Uma boa equipe já tem o que dizer sobre o cenário ruim: se, no prazo combinado, o dado não se mexer, alguma coisa muda — a prática, o modo de aplicá-la ou a própria meta. Resposta que só descreve o sucesso é meia resposta. E vale lembrar do contrário também: a evidência é feita de médias e de repetições em quem participou dos estudos, então só o acompanhamento diz o que está acontecendo com esta pessoa, nesta rotina, neste mês.

Como vocês decidem quando parar, ou quando mudar de estratégia?

Uma boa resposta descreve dois critérios de saída, ambos definidos de antemão: o de sucesso — a meta foi alcançada, o apoio vai sendo reduzido, o caso caminha para a alta — e o de revisão — o prazo venceu, o dado não andou, o plano será remontado. Serviços que só conseguem descrever a entrada, e nunca a saída, deixam você sem referência para decidir qualquer coisa.

Mudar de estratégia diante de um dado que não anda é ciência, não desistência. Insistir sem dado, por outro lado, não é persistência: é hábito. E cuidado com o oposto — trocar de abordagem a cada seis semanas, antes de qualquer plano ter tempo de existir, produz um histórico em que nada pode ser interpretado. Por isso o prazo é combinado antes: ele protege dos dois erros.

Sobre a sua parte

A última rodada trata do que acontece fora da sala de terapia — e do que fazer quando você e a equipe não concordam.

O que eu faço entre as sessões — ou, se estou acompanhando alguém, o que muda em casa?

Uma boa resposta é pequena, concreta e cabível na rotina real: o que fazer, em qual momento do dia, e como perceber que funcionou. Para quem faz a própria terapia, isso normalmente é uma tarefa entre sessões — um registro, um exercício no horário combinado, uma saída que estava sendo evitada. Para quem acompanha um filho, é o que muda na rotina de casa. Nos dois casos vale mais quando a equipe se oferece para mostrar, e não só explicar: combinar uma sessão em que você observa, ou faz junto, rende mais do que qualquer folha de orientação. E uma boa equipe pergunta de volta: quanto a rotina aguenta, quem mais mora na casa, o que já foi tentado e não deu certo.

Também é uma resposta legítima ouvir “neste momento, nada além do que você já faz”. Nem todo plano precisa de tarefa fora da sessão, e transformar a semana inteira numa segunda jornada de terapia costuma cobrar caro — do ânimo de quem se trata e, quando quem é atendido é uma criança, da relação dentro de casa. O que não serve é a orientação genérica de sempre — “vá reforçando em casa o que a gente faz aqui” — sem que ninguém tenha explicado o que é “isso” nem como se faz.

O que vocês fazem se eu discordar de uma meta?

Uma boa resposta trata a discordância como informação, não como resistência. A equipe pergunta o porquê antes de argumentar, explica a consequência técnica de retirar ou adiar aquela meta, oferece alternativas e registra a decisão no plano. Evidência responde ao como; o para quê é uma escolha de valores, e valores são de quem vive a vida — a pessoa atendida e, quando ela é uma criança, também a família.

Isso não significa que a equipe deva concordar sempre. Há situações — risco à segurança, questão ética, obrigação legal — em que ela vai sustentar a posição dela, e sustentar com argumento é sinal de bom serviço, não de arrogância. A diferença que interessa é entre discordar com explicação e não considerar o que você disse. Perguntar isso antes do primeiro desacordo é mais fácil do que perguntar durante.

Como vocês conversam com as outras pessoas envolvidas — escola, médico, trabalho?

Uma boa resposta diz quem faz esse contato, com que frequência e em que formato — relatório, reunião, visita, conversa por telefone. E deixa claro que isso depende de autorização: sua, quando a terapia é sua; dos responsáveis, quando quem é atendido é uma criança. Informação não circula sem esse combinado.

O motivo de a pergunta importar é simples: uma habilidade treinada só na clínica tende a ficar na clínica. Quando os adultos dos dois lugares combinam a mesma linguagem e os mesmos apoios — a terapeuta e a professora de um adolescente que está indo mal na escola, por exemplo —, a pessoa não precisa aprender tudo duas vezes. O mesmo vale para quem faz psicoterapia e também consulta um psiquiatra: se os dois profissionais não se falam, sobra para você levar e trazer a informação. Se quem precisa estar nessa conversa ainda não está, vale combinar quem vai fazer a ponte — e quando.

Sinais de que a resposta não foi boa

Nenhum item desta lista é, sozinho, um veredito. Todos são motivo para perguntar de novo, com mais calma:

  • Promessa de resultado garantido. “Em seis meses isso está resolvido, pode ficar tranquilo.” Nenhuma intervenção séria consegue prometer um resultado individual — quem promete está vendendo, não planejando.
  • Recusa a colocar metas por escrito. Metas escritas protegem os dois lados, inclusive a equipe. Resistir a escrevê-las costuma indicar que elas ainda não existem.
  • “Confie em nós” como resposta a uma pergunta técnica. Confiança é consequência de respostas claras, não substituto delas.
  • Nenhuma medida de progresso combinada. Sem dado e sem data, “está evoluindo bem” não pode ser confirmado nem contestado por ninguém — e daqui a um ano a conversa será a mesma.
  • Desconforto com a pergunta sobre fidelidade. Quem tem um sistema de checagem fala dele com naturalidade, às vezes até com orgulho. A irritação com a pergunta é a resposta.

Um contrapeso justo: uma resposta apressada num corredor, no fim do horário, é diferente de uma recusa. Profissional bom também esquece número e diz “não sei de cabeça”. O que vale observar é o padrão — e o que acontece depois: quem se compromete a conferir e responder por escrito até tal dia está dando, ali mesmo, a melhor resposta possível.

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Perguntar não é desconfiar — é participarNada nesta página é um teste, e você não está sendo convidado a fiscalizar ninguém. Cada uma dessas perguntas existe porque a decisão é compartilhada: a equipe traz a técnica, você traz o contexto, os valores em jogo — os seus, ou os da sua família — e o que a rotina aguenta de verdade, e nenhum dos dois lados consegue decidir bem sozinho. E perguntar também facilita o trabalho de quem atende: com metas escritas e dado combinado, a equipe deixa de trabalhar no escuro e passa a poder mostrar o que fez. Se você quiser um roteiro para o que vem antes da primeira conversa, ele está em como usar a prática baseada em evidências.

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Três perguntas sobre como ler uma resposta. Você vê a explicação na hora.

Para saber mais

  1. APA Presidential Task Force on Evidence-Based Practice. “Evidence-based practice in psychology”. American Psychologist, 61(4), 271–285, 2006.
  2. Slocum, T. A.; Detrich, R.; Wilczynski, S. M.; Spencer, T. D.; Lewis, T.; Wolfe, K. “The evidence-based practice of applied behavior analysis”. The Behavior Analyst, 37(1), 41–56, 2014.
  3. Hume, K.; Steinbrenner, J. R.; Odom, S. L. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032, 2021.
  4. Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. Chapel Hill: The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, NCAEP, 2020.
  5. Autism Focused Intervention Resources & Modules (AFIRM) — módulos gratuitos de treinamento sobre as práticas, úteis para saber o que cada uma exige de quem a aplica. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. Disponível em afirm.fpg.unc.edu.
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Esta página tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Ela não indica nem recomenda uma intervenção para uma pessoa específica — cada caso exige avaliação individualizada.

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