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Extinção (EXT)

Extinction

boltEm resumo

Extinção é o nome técnico de uma coisa só: a consequência que vinha mantendo um comportamento deixa de vir. Não é “ignorar a criança”, não é deixá-la em sofrimento e não é algo para se fazer por conta própria. Só faz sentido depois de descobrir o que aquele comportamento estava conseguindo; quase sempre vem junto com o ensino de um caminho melhor; e costuma ter uma piora temporária no começo — o motivo exato pelo qual isso exige plano escrito e acompanhamento profissional.

Nome oficial · Extinction (EXT)

Retirada das consequências que vinham reforçando um comportamento desafiador, para reduzir a ocorrência futura desse comportamento.

No Brasil circula como extinção e, de forma imprecisa, como ignorar planejado. O segundo nome é a origem de boa parte dos mal-entendidos que esta página precisa desfazer.

O que é, na prática

Repare no que a definição oficial descreve: ela fala de consequências, não da atitude de quem está por perto. O que sai de cena é aquilo que vinha alimentando o comportamento — a atenção que chegava sempre, o objeto que voltava, a tarefa difícil que era retirada. Extinção é a interrupção desse efeito. Não é uma postura (“não dar bola”, “fingir que não viu”), e é justamente por ser confundida com uma postura que ela vira, na boca de muita gente, algo bem pior do que é.

O detalhe que quase ninguém repara está no tempo verbal: “as consequências que vinham reforçando. A definição pressupõe que alguém já descobriu qual era essa consequência. Sem isso, não há como retirar a certa — e o erro tem uma direção previsível. Se o comportamento servia para escapar de uma tarefa pesada, “ignorar” entrega exatamente a fuga que o mantinha, e o plano faz o contrário do que pretendia. Descobrir o que o comportamento consegue é assunto da avaliação funcional do comportamento (FBA), e vem antes.

Há uma segunda coisa que a definição deixa clara pelo que não diz: extinção não ensina nada. Ela informa, no máximo, que um caminho deixou de levar aonde levava — sem dizer qual caminho leva. Por isso ela quase nunca aparece sozinha num plano bem-feito: costuma vir acompanhada do reforçamento diferencial (DR) e, muitas vezes, do ensino de um pedido que consiga a mesma coisa — o treino de comunicação funcional (FCT). O conceito em si está detalhado no verbete extinção da Enciclopédia iW4.

info

Extinção não é ignorar a criança“Ignorar” descreve o comportamento do adulto; extinção descreve o que acontece com uma consequência específica. São coisas diferentes, e a diferença é prática: num plano legítimo a criança continua sendo olhada, acolhida, conversada e atendida — o que muda é apenas o que aquele comportamento em particular passa a conseguir. Nenhum plano defensável prevê deixar alguém em sofrimento, em risco, sem via de comunicação ou sem um adulto disponível.

Extinção não anda sozinha

Três coisas costumam andar coladas nela, e é por isso que ela raramente é tema de uma conversa isolada com a equipe.

Antes vem a função. Sem saber o que o comportamento estava conseguindo — atenção, escape, acesso a alguma coisa, alívio sensorial —, qualquer retirada é chute. Duas crianças podem fazer a mesmíssima coisa por motivos opostos, e o que ajuda uma piora a outra.

Junto vem uma alternativa que funcione. Se o caminho antigo deixa de funcionar e nenhum outro foi ensinado, a pessoa fica sem saída — e ficar sem saída não é intervenção, é abandono técnico. A alternativa precisa ser possível para ela hoje, com o repertório que ela já tem, e precisa conseguir a mesma coisa que o comportamento antigo conseguia. De preferência mais rápido e com menos esforço.

Durante vem o acompanhamento. É aqui que entra o ponto seguinte, que é o mais mal compreendido de todos.

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O pico de extinção — e por que isto não se faz sozinhoQuando algo que sempre funcionou para de funcionar, pode acontecer de o comportamento aumentar antes de diminuir: ficar mais frequente, mais intenso, às vezes aparecer de uma forma nova. Isso tem nome — pico de extinção — e é um efeito esperado, não sinal de fracasso. O problema é o que costuma acontecer com quem não foi avisado: a piora é lida como “não funcionou”, o adulto volta atrás no pior momento possível e o que fica ensinado é que basta insistir com mais força. Por isso extinção não é tarefa para a família aplicar por conta própria a partir de um vídeo ou de um texto. Exige plano escrito, combinado com todos os adultos, critérios de segurança definidos e alguém habilitado acompanhando. Esta página explica o que é; ela não ensina a fazer — e essa omissão é deliberada.

Como aparece no dia a dia

O que muda de um ambiente para outro não é a técnica, é quem precisa estar combinado. Em cada aba há um exemplo concreto e duas perguntas que valem a pena levar para a equipe que atende:

Em casa

O cenário clássico: no mercado, o grito acaba trazendo o doce. Um plano bem construído não começa pelo grito — começa por garantir que exista um jeito de pedir que a criança consiga usar ali, naquele corredor, e que esse pedido seja atendido de verdade. A parte da família raramente é “aguentar firme”: é combinar a mesma resposta entre pai, mãe, avó e quem mais estiver junto, porque uma resposta que às vezes vem e às vezes não vem sustenta o comportamento antigo com mais força do que uma que sempre vinha.

Para perguntar: o que exatamente vocês identificaram que esse comportamento consegue para ele? Qual é o comportamento que vai passar a conseguir a mesma coisa — e ele já está no repertório dele hoje?

Na escola

Na sala, o número de adultos envolvidos cresce: professora, auxiliar, quem cobre a falta, a coordenação, o pessoal do recreio. Um plano que só a professora titular conhece tende a produzir respostas diferentes no mesmo dia — e a inconsistência é o que mantém comportamentos de pé. Vale lembrar também que, às vezes, a resposta certa não é mudar o comportamento do aluno, e sim mudar o que o ambiente está exigindo dele: uma tarefa longa demais, um ruído contínuo, um dia sem nenhuma previsibilidade.

Para perguntar: todos os adultos que passam pela sala conhecem o combinado, inclusive quem substitui? O que a escola faz — e a quem avisa — nos dias em que o comportamento aumenta?

Na terapia

É aqui que o plano vira documento: o que foi identificado na avaliação funcional, qual alternativa está sendo ensinada, o que os adultos fazem quando o comportamento aparecer, quais medidas de segurança valem, que dado será registrado e em que ponto o plano é revisto. Um plano de extinção sem critério de revisão escrito é um plano incompleto, por mais bem-intencionado que seja.

Para perguntar: em que ponto vocês param e revisam esse plano — qual é o critério? Que medidas de segurança estão previstas se o comportamento aumentar nas primeiras semanas?

O QUE COSTUMA ACONTECER QUANDO O PLANO COMEÇA mais menos tempo o plano começa pico de extinção — a piora temporária comportamento que se quer diminuir comportamento alternativo ensinado
A piora do começo é a parte mais mal interpretada de todas: ela acontece porque o comportamento ainda está “insistindo” no caminho que sempre deu certo. Quem não sabe disso desiste exatamente no ponto mais alto da curva — e ensina que insistir mais forte funciona.

O que a revisão do NCAEP encontrou

Esta prática foi sustentada pelos seguintes números de estudos, na revisão que cobriu de 1990 a 2017:

25estudos no total
1990 a 2017
13entre 1990 e 2011
(22 anos)
12entre 2012 e 2017
(6 anos)

Comparação de volume de pesquisa — não de força do efeito nem de qualidade. A barra cheia seria a prática mais estudada da lista (Ajudas e dicas, 140 estudos).

Repare que os dois períodos têm tamanhos diferentes: o primeiro cobre 22 anos e o segundo apenas 6. Aqui os dois números são praticamente iguais — 13 e 12 —, o que significa que a prática vem sendo estudada num ritmo bem mais acelerado nos anos recentes do que nas duas décadas anteriores.

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O que esse número diz — e o que ele não dizDiz: quanta pesquisa de qualidade metodológica suficiente foi encontrada sobre esta prática entre 1990 e 2017. Não diz: que ela é melhor que uma prática com menos estudos; que funciona para todo mundo; que funciona para qualquer objetivo; nem o tamanho do efeito. Práticas mais antigas e mais fáceis de estudar acumulam naturalmente mais artigos — isso é história da pesquisa, não superioridade. Entenda melhor.

Para quem e para quê

A extinção faz uma coisa só: interrompe o efeito que vinha mantendo um comportamento de pé. Ela não ensina, não acalma, não explica e não substitui nada — e é exatamente por isso que só faz sentido dentro de um plano que também ensina. Quando aparece sozinha, o que sobra é uma pessoa sem o caminho antigo e sem nenhum caminho novo. Isso é o que a prática faz — e é diferente de uma lista de objetivos ou de idades para os quais ela “estaria indicada”.

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Existe uma tabela oficial — e ela não está aquiO relatório do NCAEP publica uma matriz que cruza cada prática com 13 tipos de resultado (comunicação, social, comportamento desafiador, acadêmico, brincar, motor, saúde mental e outros) e três faixas etárias: 0 a 5, 6 a 14 e 15 a 22 anos. Essa matriz é publicada como imagem, célula a célula. Nós não a reproduzimos: transcrever centenas de células à mão criaria um risco de erro que a sua decisão não deveria correr. Consulte a tabela no relatório original — e leve a pergunta para quem atende: “para qual resultado, e nesta idade, essa prática tem evidência?”

Perguntas frequentes

Extinção é a mesma coisa que ignorar meu filho?

Não. “Ignorar” é uma descrição do que o adulto faz; extinção é uma descrição do que acontece com uma consequência específica. Elas só coincidem num caso — quando a consequência que mantinha o comportamento era justamente a atenção. Em todos os outros casos, não responder pode ser inútil ou até prejudicial: se o comportamento servia para escapar de algo, não responder entrega o escape. E, em qualquer configuração, a criança continua sendo acolhida e atendida no resto: o plano mexe num ponto, não na relação.

E se o comportamento piorar depois que começarmos?

É um cenário previsto e tem nome: pico de extinção. Vale saber disso antes de começar, porque a piora costuma ser lida como fracasso justamente quando o plano está fazendo efeito. O que o plano precisa dizer, por escrito, é o que os adultos fazem nessas horas, qual é o limite de segurança e em que ponto a equipe é acionada. Se ninguém combinou esses critérios com você, isso é assunto urgente para a próxima conversa — não para o improviso da hora.

Dá para fazer isso em casa, por conta própria?

A família tem um papel central — sem consistência entre os adultos, nenhum plano se sustenta. Mas construir o plano é outra coisa: exige identificar a função do comportamento, escolher e ensinar a alternativa, prever a piora inicial e definir medidas de segurança. Isso é trabalho de profissional habilitado, com acompanhamento. Quando o comportamento coloca alguém em risco, isso deixa de ser recomendação e passa a ser condição: não se inicia nada sem avaliação e sem plano de segurança combinado.

Se a extinção não ensina nada, para que ela serve?

Ela retira o combustível. Enquanto o caminho antigo continuar entregando o que sempre entregou, ele segue sendo o mais curto — e nenhuma alternativa nova compete com um caminho que funciona sempre. A extinção é o que faz a alternativa valer a pena; a alternativa é o que faz a extinção ser defensável. Uma sem a outra é meio plano. Veja também o reforçamento (R) e o verbete extinção na Enciclopédia iW4.

extinção pico de extinção função do comportamento reforçamento consistência entre adultos plano de intervenção

Para saber mais

  1. Hume, K.; Steinbrenner, J. R.; Odom, S. L. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032, 2021.
  2. Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. Chapel Hill: The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, NCAEP, 2020.
  3. Autism Focused Intervention Resources & Modules (AFIRM) — módulo Extinction. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. Disponível em afirm.fpg.unc.edu.
  4. Cobertura da revisão: 1990–2017. Pesquisa publicada depois disso não está contabilizada aqui.

verifiedDe onde vem esta informação

Esta página resume o que a revisão do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP) encontrou sobre esta prática. A revisão reuniu estudos publicados entre 1990–2017.

Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2020). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team.

Hume, K., Steinbrenner, J. R., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2021). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032.

Consultar o relatório original open_in_new

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Esta página tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Ela não indica nem recomenda uma intervenção para uma pessoa específica — cada caso exige avaliação individualizada.

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A Enciclopédia iW4 explica Extinção em detalhe. Aqui você vê o que a pesquisa mostra sobre o uso dessa prática no autismo.

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