Marcos do desenvolvimento são habilidades que a maioria das crianças de uma certa idade já apresenta: sentar sem apoio, apontar, dizer as primeiras palavras, brincar de faz de conta. Não são prova nem prazo — cada marco tem uma janela ampla de normalidade. Eles existem para a vigilância do desenvolvimento, o acompanhamento consulta a consulta, e as listas atuais trazem o que ao menos 75% das crianças já fazem naquela idade, justamente para que ninguém seja mandado “esperar mais um pouco”. Um marco não alcançado não é diagnóstico: é um convite a investigar agora.
Marcos do desenvolvimento (developmental milestones) são comportamentos observáveis — motores, de linguagem, cognitivos e socioemocionais — que a maioria das crianças de uma determinada faixa de idade já apresenta. Organizados por idade, eles instrumentalizam a vigilância do desenvolvimento: o acompanhamento longitudinal, em cada consulta, de como a criança brinca, aprende, fala, age e se movimenta. Marcos não são testes nem critérios diagnósticos — são o ponto de partida para decidir se vale aplicar um instrumento padronizado.
Quatro domínios, e não uma nota só
Desenvolvimento não é uma régua única. As listas de referência do CDC e da Academia Americana de Pediatria (AAP) organizam os marcos em quatro áreas, que avançam em ritmos próprios: é comum uma criança estar adiantada numa e mais devagar em outra. Toque nos cartões para ver exemplos reais de cada domínio.
Uma janela, não um prazo
“O bebê anda com 1 ano” é uma mediana, não um prazo. No estudo da OMS, a mediana para andar sozinha é de exatamente 12,0 meses — o que significa, por definição, que metade das crianças saudáveis anda depois disso. É daí que nasce a maior parte da angústia. A OMS mediu o assunto com cuidado no Estudo de Desenvolvimento Motor, parte do seu estudo multicêntrico de referência de crescimento: 816 crianças de Gana, Índia, Noruega, Omã e Estados Unidos foram avaliadas dos 4 aos 24 meses, em visitas mensais no primeiro ano.
O resultado não foi uma idade para cada marco, e sim uma janela de aquisição — do percentil 1 ao 99, publicada sem nenhuma marcação interna. Sentar sem apoio aconteceu entre 3,8 e 9,2 meses; andar sozinha, entre 8,2 e 17,6 meses. Tudo isso, nas palavras do próprio estudo, é variação normal entre crianças saudáveis.
Repare na largura das janelas: a mais estreita é sentar sem apoio (5,4 meses de amplitude); as mais largas são ficar de pé sozinha (10,0 meses) e andar sozinha (9,4 meses). Ou seja, a janela mais larga é quase o dobro da mais estreita — e quanto mais larga a janela, menos sentido faz comparar uma criança com o primo ou com o vizinho.
Engatinhar não é obrigatórioNo estudo da OMS, 35 das 816 crianças (4,3%) nunca foram vistas engatinhando sobre mãos e joelhos — usaram outras formas de se locomover, como arrastar-se sentada ou de barriga. Em cerca de 90% dos casos os outros cinco marcos seguiram uma ordem fixa, e só o engatinhar mudava de lugar na sequência. Nas listas atuais do CDC para 9 meses e para 1 ano, “engatinha” não aparece entre os marcos.
Por que as listas passaram a usar “75% das crianças”
Em 2022, o CDC e a AAP revisaram juntos as listas de marcos do programa Learn the Signs. Act Early. e trocaram o critério. Antes, muitas listas se baseavam na idade mediana (percentil 50) — a idade em que metade das crianças alcança a habilidade. O problema é prático: se metade ainda não alcançou, não há como saber se é hora de se preocupar. Nas palavras dos autores, listas baseadas na mediana “podem encorajar uma abordagem de esperar para ver”.
E isso não era hipotético. Em grupos focais do CDC, pais de crianças com deficiência relataram atraso na identificação porque lhes disseram para esperar — que cada criança se desenvolve no seu tempo, que algumas demoram mais. O novo critério inverte a lógica: a lista traz marcos que 75% ou mais das crianças daquela idade já deveriam apresentar, e que sejam fáceis de observar no dia a dia.
A revisão mudou bastante as listas:
- de 216 marcos em 10 listas para 159 marcos em 12 listas — uma redução de 26,4%, com a média caindo de 22 para 13 marcos por lista;
- entraram listas de 15 e de 30 meses, cobrindo todas as consultas de rotina recomendadas dos 2 meses aos 5 anos;
- os antigos “sinais de alerta” foram eliminados: não alcançar um marco que 75% das crianças já alcançam, por si só, já justifica investigar;
- cerca de 80% dos marcos finais tinham dado normativo de pelo menos uma fonte — e os domínios socioemocional e cognitivo são os que têm menos dado disponível, uma lacuna reconhecida pelos próprios autores.
Vigilância, triagem e avaliação: três coisas diferentes
Marcos aparecem nas três etapas, mas com papéis distintos. Confundi-las é a origem de muito mal-entendido — inclusive do medo de “ser rotulado” numa consulta de rotina. Explore cada etapa:
Vigilância do desenvolvimento
É o acompanhamento contínuo e observacional: olhar, consulta após consulta, como a criança brinca, aprende, fala, age e se movimenta, e conversar com quem cuida dela. A AAP recomenda que a vigilância seja parte de toda consulta de puericultura. Não usa pontuação nem gera diagnóstico — gera uma pergunta: está tudo seguindo bem?
Triagem padronizada
Aqui entra um instrumento validado — questionário ou lista com perguntas sobre linguagem, movimento, pensamento, comportamento e emoções. A AAP recomenda triagem do desenvolvimento para todas as crianças nas consultas de 9, 18 e 30 meses, mais a triagem específica de autismo aos 18 e 24 meses — e sempre que a vigilância levantar alguma preocupação. Triagem indica risco, não diagnóstico.
Avaliação diagnóstica
Só esta etapa conclui algo. Uma triagem alterada leva a uma avaliação aprofundada, com equipe qualificada, instrumentos próprios, exame físico, história e observação direta — e, em paralelo, ao encaminhamento para intervenção, que não precisa esperar o diagnóstico fechar. Veja os verbetes sobre diagnóstico do autismo e confiabilidade e validade da medida.
Como o Brasil acompanha: a Caderneta da Criança
No SUS, o instrumento é a Caderneta da Criança — Passaporte da Cidadania, do Ministério da Saúde. Na seção “Acompanhando o Desenvolvimento” ela traz a vigilância do desenvolvimento infantil e tabelas de marcos por faixa de idade: do nascimento aos 6 meses, dos 6 meses a 1 ano e meio, de 1 ano e meio a 3 anos e meio, de 3 anos e meio a 5 anos e de 5 a 6 anos, além de uma seção sobre o desenvolvimento de 6 a 10 anos. Também inclui o M-CHAT-R, com a interpretação da pontuação.
Em cada consulta, o profissional registra cada marco como P (presente) ou A (ausente) e classifica o desenvolvimento em uma de três faixas, cada uma com uma conduta correspondente:
- adequado para a idade — segue o acompanhamento de rotina, com orientação para continuar estimulando;
- alerta para o desenvolvimento — orientação sobre a estimulação da criança e consulta de retorno em 30 dias;
- provável atraso no desenvolvimento — acionar as equipes de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento.
Dois detalhes da Caderneta que valem muito na prática. Primeiro: quem nasceu prematuro tem a idade corrigida — desconta-se da idade atual o tempo que faltou para completar as 40 semanas de gestação, e é essa idade que se usa para ler os marcos. Segundo: a Caderneta instrui o profissional a sempre perguntar aos cuidadores o que eles acham do desenvolvimento da criança, e a valorizar essa informação. Quem convive com a criança todos os dias costuma notar antes.
Quando não esperar
A pergunta que importa não é “está atrasado?”, e sim “vale investigar agora?”. Um marco não alcançado não diz qual é a causa, não define o futuro da criança e não é culpa de ninguém — mas é o momento de agir, porque o apoio cedo faz diferença real no desenvolvimento e na vida da família.
Converse com o profissional sem esperarA orientação do CDC é direta: se a criança não está alcançando um ou mais marcos da sua idade, se perdeu habilidades que já tinha, ou se existe qualquer outra preocupação sobre como ela brinca, aprende, fala, age e se movimenta — não espere. Fale com o pediatra e compartilhe o que você observou. Agir cedo pode fazer uma diferença real.
Nos primeiros sinais ligados ao autismo, especificamente, veja os verbetes sobre sinais precoces do autismo e diagnóstico do autismo.
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Para saber mais
- WHO Multicentre Growth Reference Study Group. “WHO Motor Development Study: windows of achievement for six gross motor development milestones”. Acta Paediatrica, supl. 450, 2006.
- Zubler JM, Wiggins LD, Macias MM et al. “Evidence-Informed Milestones for Developmental Surveillance Tools”. Pediatrics, 149(3):e2021052138, 2022.
- Lipkin PH, Macias MM; American Academy of Pediatrics. “Promoting Optimal Development: Identifying Infants and Young Children With Developmental Disorders Through Developmental Surveillance and Screening”. Pediatrics, 145(1):e20193449, 2020.
- Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança — Passaporte da Cidadania, 7ª ed., seção “Acompanhando o Desenvolvimento”.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Learn the Signs. Act Early. — listas de marcos e monitoramento do desenvolvimento.
Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.