Nenhuma prática entra numa lista de evidências por indicação, por popularidade ou por voto. Ela entra depois de um funil: uma busca enorme, um descarte quase total e, no fim, três caminhos alternativos — cada um exigindo que mais de um grupo de pesquisa, em lugares diferentes, tenha chegado ao mesmo resultado. É por isso que cinco estudos podem bastar e cem podem não significar nada: o que conta não é o tamanho da pilha, é o que ela teve de atravessar. O caminho — buscar, descartar por regras escritas antes e só então perguntar se houve replicação — é o de qualquer revisão séria, em qualquer área; já os números e os limiares desta página são de uma revisão específica: a de práticas para autismo, seguida do começo ao fim porque é o exemplo mais bem documentado que temos à mão.
Uma revisão sistemática não é a opinião de um especialista sobre o que funciona. É um procedimento declarado antes de começar: onde buscar, com quais termos, o que aceitar, o que descartar e por qual motivo — tudo escrito de antemão, para que outra equipe possa refazer o mesmo caminho e chegar ao mesmo lugar. Uma revisão de práticas dá um passo a mais: em vez de perguntar “este programa de nome próprio funciona?”, ela pergunta quais componentes de intervenção aparecem sustentados por pesquisa suficiente — independentemente de quem os batizou ou de quem os vende.
O NCAEP — National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice — é o centro sediado no Frank Porter Graham Child Development Institute, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, responsável pela revisão de práticas para autismo que este módulo acompanha em detalhe. Outras áreas têm as suas próprias revisões, feitas por outros grupos.
Um exemplo concreto, um procedimento geralPara mostrar como uma prática vira “prática com evidência”, esta página segue uma revisão real do começo ao fim: a do NCAEP, sobre autismo. O que você vai acompanhar, no entanto, é o procedimento: buscar nas bases, triar com regras escritas antes da primeira leitura, avaliar cada estudo pelos padrões do seu próprio delineamento e só então perguntar se já há pesquisa suficiente. Esse jeito de proceder é o mesmo quando a pergunta é sobre depressão, ansiedade em adultos, TDAH, luto ou dificuldade escolar. Os números e os limiares, não: cada área tem a sua própria revisão, com a sua própria contagem e os seus próprios critérios — nada disso pode ser transportado desta página para outro tema.
O funil, num exemplo real: de 31.779 artigos a 28 práticas
A pergunta “essa prática tem evidência?” parece pedir uma busca. Na prática, ela pede o contrário: uma sequência de descartes. A revisão de autismo do NCAEP varreu as bases de pesquisa com um conjunto de termos definido de antemão e encontrou 31.779 artigos. Quase nada disso chegou ao fim.
Cada artigo passou por uma triagem com regras escritas antes de o primeiro ser lido: sobre quem o estudo era, que tipo de intervenção descrevia, o que exatamente havia sido medido e — a parte mais dura — com qual qualidade metodológica aquilo tinha sido feito. Sobraram 567 estudos incluídos nesta etapa.
Aqui vem o passo que costuma confundir. Esses 567 estudos não são a base inteira: eles foram somados ao que a revisão anterior já havia selecionado, formando 972 artigos sintetizados. A lista não recomeça do zero a cada edição — ela se acumula sobre uma triagem que já tinha sido feita. Foi sobre esses 972 artigos que os critérios de evidência foram aplicados, e é dali que saem as 28 práticas dessa área.
Repare no que o desenho está dizendo. De cada mil artigos que a busca trouxe, a esmagadora maioria não chegou perto do fim — não porque alguém não gostou deles, mas porque não passaram por um crivo declarado de antemão. Esse é o gesto que sustenta a lista inteira: a confiabilidade vem do descarte, não do acúmulo. E isso não é uma peculiaridade do autismo: é o que separa uma revisão sistemática — de qualquer tema — de uma lista de recomendações. Quando você encontrar, sobre outra questão, um material que se apresenta como “o que funciona”, a primeira coisa a procurar é justamente esta: quantos estudos foram descartados, e por quais regras?
E essa acumulação tem história. No caso do autismo, foram três gerações de revisão: a primeira, em 2010, reconheceu 24 práticas; a segunda, publicada em 2014 e 2015, chegou a 27; a terceira, a do NCAEP, chegou a 28. Não é uma lista que só cresce por novidade: entre uma edição e outra, categorias se fundem, mudam de nome e trocam de lugar — e você pode ver as 28 práticas uma a uma.
Dois jeitos de pesquisar, os dois válidos
Quando se fala em “estudo”, muita gente imagina uma coisa só: dois grupos, um recebe o tratamento e o outro não, compara-se no fim. Esse é um dos jeitos — e, na pesquisa que essa revisão reuniu, não é o mais frequente. A proporção entre um formato e outro varia de área para área e depende do tipo de pergunta; os dois são válidos, e respondem a coisas diferentes. Explore os dois:
Estudo de grupo
Compara quem recebeu a intervenção com quem não recebeu — ou com quem recebeu outra coisa. Se os dois grupos forem parecidos no começo e só um deles passar pelo procedimento, a diferença no fim tem boa chance de ter vindo dali. Quanto melhor for a formação dos grupos, mais forte fica esse argumento.
A pergunta que esse desenho responde é: funciona, em média, para pessoas como as que participaram? É a resposta certa quando se quer decidir o que oferecer a muita gente: um programa em grupo para quem está deprimido produz, em média, mais melhora do que a espera pela vaga? — é esse o tipo de pergunta que ele responde. E é uma resposta que não conta o que vai acontecer com uma pessoa em particular: uma média esconde, dentro dela, quem avançou muito, quem não mudou e quem piorou.
Estudo de caso único
Acompanha a mesma pessoa ao longo do tempo, medindo repetidamente o comportamento de interesse e comparando fases com e sem a intervenção. Cada participante é a sua própria comparação: em vez de perguntar como ele se sai em relação a outro grupo, pergunta-se como ele se sai em relação a si mesmo, antes e depois.
E o desenho não para na primeira mudança. Ele repete o efeito — retirando e reintroduzindo o procedimento, ou aplicando-o em momentos diferentes a comportamentos, ambientes ou pessoas diferentes — para mostrar que a mudança acompanha a intervenção, e não o calendário. A pergunta que responde é: funciona para esta pessoa, de forma repetível?
É o desenho das perguntas que aparecem no dia a dia de um atendimento: se um combinado de apoio sustenta a rotina de estudo de um adolescente com TDAH, se uma estratégia ajuda um adulto a enfrentar a situação que ele vem evitando, se um procedimento faz a lição de casa começar sem briga. São perguntas sobre uma pessoa — e é para elas que esse delineamento foi feito.
“Alta qualidade” quer dizer o quê?Os dois delineamentos não são julgados com a mesma régua — não faria sentido. Cada estudo foi avaliado segundo padrões próprios do seu tipo de desenho: se as medidas foram definidas antes de começar, se mais de um observador mediu a mesma coisa e concordou, se o procedimento foi descrito com detalhe suficiente para outra pessoa repeti-lo, se as fases duraram o bastante para mostrar estabilidade. Um estudo pode ser sobre uma prática interessantíssima e ainda assim não entrar na conta, se não atender a esses padrões.
Aqui mora um dos mal-entendidos mais caros dessa conversa. Muita gente aprende que “caso único é a base da pirâmide” e conclui que essa pesquisa vale pouco — é leitura errada. A pirâmide clássica foi desenhada para outra pergunta: a de tratamentos comparados em grandes populações, em que o ensaio aleatorizado e a metanálise realmente ocupam o topo. Um bom estudo de caso único faz outra coisa — mostra o efeito aparecendo e desaparecendo junto com a intervenção, várias vezes, em várias pessoas, medido por observadores independentes que concordam entre si. Isso não é um estudo fraco: é um controle experimental exigente, aplicado pessoa a pessoa. O verbete hierarquia de evidências explica por que a pirâmide responde bem a uma pergunta, e não a todas.
E isso não é detalhe de rodapé: dos estudos incluídos na revisão de autismo, 83% eram de caso único e 17%, de delineamento de grupo. Uma lista de práticas construída ali apenas com ensaios de grupo teria jogado fora a maior parte do que se sabe. Essa proporção é uma característica daquela literatura, não uma lei: em outros temas ela pode ser bem diferente. O que não muda é o critério de leitura — descartar um delineamento inteiro por posição na pirâmide é descartar conhecimento.
Os três caminhos até a lista
Com os artigos triados, restava a pergunta final: quanta pesquisa basta? A resposta que essa revisão adotou não é um número único. São três caminhos alternativos — atender a qualquer um deles põe a prática na lista. Eles não são etapas em sequência: são portas diferentes para a mesma sala.
O caminho A pede 2 ou mais estudos de delineamento de grupo de alta qualidade, conduzidos por pelo menos 2 grupos de pesquisa diferentes. O caminho B pede 5 ou mais estudos de caso único de alta qualidade, de pelo menos 3 investigadores diferentes, somando 20 ou mais participantes. O caminho C é misto: 1 estudo de grupo somado a 3 ou mais de caso único, de pelo menos 2 investigadores diferentes.
Compare o que muda de um caminho para o outro e o que não muda. A quantidade muda: 2 estudos num, 5 em outro. O tipo de delineamento muda. Há, porém, uma exigência que aparece nos três, sem exceção — mais de um grupo de pesquisa. Nunca basta um laboratório só.
Essa é a parte que mais protege quem vai receber o tratamento — você, um filho, alguém de quem você cuida — e a que menos aparece nas divulgações. Um efeito que só acontece nas mãos de quem inventou o procedimento pode ser muitas coisas: o entusiasmo daquela equipe, as características daquela clínica, medidas feitas por quem torcia pelo resultado. Quando outro grupo, em outro lugar, com outras pessoas, chega ao mesmo ponto, a explicação mais econômica passa a ser o procedimento em si. É por isso que “temos dezenas de estudos” diz menos do que “nossos resultados foram replicados por gente que não trabalha conosco”.
E esses limiares são os desta revisão — não um padrão internacional. Outros centros, em outras áreas, montam critérios com contas próprias: mais ou menos estudos, outros nomes para os níveis, outras exigências de acompanhamento. Não existe um limiar universal — e é por isso que, diante de qualquer lista de “práticas com evidência”, cabem duas perguntas simples: quais foram os critérios e eles pedem replicação por mais de um grupo de pesquisa?
Por que “cinco estudos” pode ser suficiente — e por que “cem estudos” não é um selo de superioridadeO critério é um piso, não uma nota. Ele responde a uma pergunta de sim ou não — “já dá para afirmar que isto foi replicado por mais de um grupo?” — e, uma vez atravessado, para de contar pontos. Por isso uma prática sustentada por 5 estudos de caso único, de 3 investigadores diferentes e somando ao menos 20 participantes, está exatamente tão dentro da lista quanto outra com muito mais artigos. O tamanho da pilha que cada prática acumulou fala da história da pesquisa, não de força: práticas mais antigas, mais baratas de estudar e mais fáceis de medir juntaram naturalmente mais publicações. Veja o que a evidência não diz.
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Três perguntas sobre como a lista foi construída. Você vê a explicação na hora.
Para saber mais
- Hume, K.; Steinbrenner, J. R.; Odom, S. L. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032, 2021.
- Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. Chapel Hill: The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, NCAEP, 2020.
- Odom, S. L. et al. Preventing School Failure, 54(4), 275–282, 2010 — a primeira geração da revisão, com 24 práticas.
- Wong, C. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism Spectrum Disorder: A Comprehensive Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(7), 1951–1966, 2015 — a segunda geração, com 27 práticas.
- Kratochwill, T. R.; Hitchcock, J. H.; Horner, R. H. et al. “Single-case intervention research design standards”. Remedial and Special Education, 34(1), 26–38, 2013.
- Cobertura da revisão do NCAEP: 1990–2017. Pesquisa publicada depois disso não está contabilizada aqui.
Esta página tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Ela não indica nem recomenda uma intervenção para uma pessoa específica — cada caso exige avaliação individualizada.