Modelação é aprender vendo alguém fazer: uma pessoa demonstra o comportamento-alvo, e quem assiste passa a usá-lo. Antes de qualquer coisa, um aviso de tradução: modelação não é modelagem. Modelagem, em português, é o nome consagrado do shaping — reforçar aproximações sucessivas até chegar ao comportamento final. São duas práticas diferentes com nomes vizinhos, e trocar uma pela outra muda inteiramente o que você está combinando com a equipe.
Demonstração de um comportamento-alvo desejado que leva a pessoa a usar esse comportamento e a adquiri-lo.
Em português: modelação, e também demonstração ou aprendizagem por observação. Evite modelagem — essa palavra já tem dono, e o dono é outro procedimento.
O que é, na prática
Ensinar assim não exige material nenhum: basta fazer na frente de alguém, de um jeito que dê para ver. Amarrar o cadarço com as mãos bem visíveis, e devagar. Abrir o pote antes de entregá-lo. Cumprimentar o colega na porta da sala, no volume e no jeito que se espera. Passar o cartão na catraca antes de entregar o cartão ao adolescente. A demonstração carrega, de uma vez, informação que uma explicação verbal levaria muito tempo para transmitir — e que às vezes ela nem consegue transmitir.
O detalhe que passa despercebido está no fim da definição oficial, e ele é exigente: a demonstração precisa ser aquela que leva a pessoa a usar esse comportamento e a adquiri-lo. Ou seja, demonstrar não basta. Se a pessoa não chega a usar e a incorporar o comportamento, o que houve foi um adulto fazendo uma coisa na frente de uma criança — não modelação. Daí decorrem duas consequências práticas: tem que haver a vez dela, logo depois, e tem que haver algo planejado para o que acontece quando ela tenta. Por isso a modelação quase nunca aparece sozinha: costuma vir acompanhada de ajudas e dicas e de oportunidades arrumadas de propósito para praticar.
Há ainda uma decisão que fica implícita no verbo “demonstrar”: o que exatamente está sendo demonstrado. Um modelo bem feito mostra a parte que importa, no tamanho certo — nem a tarefa inteira de uma vez, nem um detalhe tão miúdo que se perde. E o que não é visível não se demonstra: dá para mostrar como se abre a mochila, não dá para mostrar “ter paciência”. Quando o alvo é longo, o costume é fatiá-lo antes com uma análise de tarefa e demonstrar pedaço por pedaço.
Modelação não é modelagem — e essa é a confusão mais provável de todasModelação (do inglês modeling) é o que esta página descreve: alguém demonstra o comportamento, e a pessoa passa a fazer igual. Modelagem é a tradução consagrada de shaping: ninguém demonstra nada — o comportamento é construído aos poucos, reforçando aproximações sucessivas a partir do que a pessoa já faz. Uma nasce do olhar; a outra, da construção passo a passo. O verbete Modelagem (shaping), na Enciclopédia iW4, explica a segunda em detalhe — inclusive é para ele que aponta o link no rodapé desta página, justamente para você poder comparar as duas lado a lado. Se numa reunião alguém disser “vamos fazer modelagem”, vale a pergunta simples: alguém vai demonstrar, ou vamos reforçar aproximações?
O modelo não precisa ser um adulto — nem estar ao vivoQuem demonstra pode ser um adulto, um colega, um irmão, ou a própria pessoa gravada num momento em que acertou. Quando a demonstração é gravada e assistida em vídeo, a revisão do NCAEP a conta como uma prática à parte: a videomodelação, com sigla própria e números próprios. Não é uma hierarquia — é uma separação de categorias na hora de contar os estudos. Qual das duas formas faz mais sentido em cada caso é uma decisão da equipe que acompanha, tomada caso a caso.
Como aparece no dia a dia
Demonstrar é tão comum que quase não se percebe; o que muda entre os ambientes é o cuidado com o que vem depois da demonstração. Em cada aba há também duas perguntas que valem a pena levar para a equipe que atende:
Em casa
Escovar os dentes lado a lado no espelho, em vez de narrar por trás o que ele deveria estar fazendo. Abrir a embalagem devagar, com o movimento à vista, e só então entregar a próxima para ele abrir. Um irmão mais velho mostrando como se serve do suco sem derramar. O erro clássico da casa é demonstrar e seguir em frente: sem a vez dele imediatamente depois, a demonstração não tem para onde ir. E vale demonstrar em vez de explicar sempre que a explicação começa a ficar comprida.
Para perguntar: quais passos vale mais eu demonstrar do que explicar com palavras? Como eu percebo se ele está olhando para a parte que importa, e não para a minha mão inteira?
Na escola
A professora resolve o primeiro exercício na lousa em voz alta antes de a turma começar. Um colega mostra como se entra numa brincadeira que já está rolando. O material de artes é montado uma vez, na frente de todos, antes de as caixas serem distribuídas. O cuidado aqui é não deixar a demonstração virar muleta permanente: se ele só começa depois de ver alguém fazer, o modelo precisa ir sendo retirado aos poucos — primeiro completo, depois parcial, depois só o início do gesto.
Para perguntar: quem demonstra para ele, com que frequência, e isso está combinado ou acontece por acaso? Existe um plano para reduzir a demonstração aos poucos, para que ele não fique esperando o modelo?
Na terapia
Aqui a demonstração é planejada: define-se o que será mostrado, por quem, quantas vezes, com qual ajuda depois e como se registra se a pessoa reproduziu sem ver o modelo antes — que é o dado que interessa. Também se decide se o modelo será ao vivo ou em vídeo, e se ele será retirado por etapas. É comum a modelação ser combinada com ajudas e dicas na mesma sessão, e é útil você saber qual das duas coisas está sendo medida.
Para perguntar: vocês registram o que ele já faz sem ver o modelo antes — dá para eu ver esse registro? O modelo é ao vivo, em vídeo ou os dois, e por que essa escolha no caso dele?
O que a revisão do NCAEP encontrou
Esta prática foi sustentada pelos seguintes números de estudos, na revisão que cobriu de 1990 a 2017:
1990 a 2017
(22 anos)
(6 anos)
Comparação de volume de pesquisa — não de força do efeito nem de qualidade. A barra cheia seria a prática mais estudada da lista (Ajudas e dicas, 140 estudos).
Repare que os dois períodos têm tamanhos diferentes: o primeiro cobre 22 anos e o segundo apenas 6. Uma prática com números parecidos nas duas colunas está, na verdade, sendo estudada bem mais rápido agora do que antes — e aqui o bloco curto é bem maior que o longo.
Vale uma observação sobre o tamanho da barra. Demonstrar é um ingrediente presente em quase todo ensino, e ingredientes onipresentes são difíceis de estudar isoladamente: quando a demonstração vem junto com ajudas, com prática arrumada e com uma consequência planejada, isolar o efeito de um pedaço só exige um desenho de estudo cuidadoso. Parte do que se sabe sobre demonstrar está contabilizada, na revisão, dentro de outras categorias — como a videomodelação, que tem contagem própria.
O que esse número diz — e o que ele não dizDiz: quanta pesquisa de qualidade metodológica suficiente foi encontrada sobre esta prática entre 1990 e 2017. Não diz: que ela é melhor que uma prática com menos estudos; que funciona para todo mundo; que funciona para qualquer objetivo; nem o tamanho do efeito. Práticas mais antigas e mais fáceis de estudar acumulam naturalmente mais artigos — isso é história da pesquisa, não superioridade. Entenda melhor.
Para quem e para quê
A modelação faz uma coisa específica: torna visível, por demonstração, o comportamento que se quer ensinar — e leva a pessoa a usá-lo e a incorporá-lo. É informação que entra pelo olhar, no lugar de uma instrução verbal que talvez não desse conta. Ela não escolhe o alvo, não constrói do zero um comportamento que ainda não existe em nenhuma forma, e não garante sozinha que o que foi copiado uma vez volte a aparecer amanhã, em outro lugar. Isso é o que a prática faz; dizer para quais objetivos ou idades ela “estaria indicada” é outra pergunta, e a resposta não está nesta página.
Há também um limite que convém dizer em voz alta: o que não se vê, não se demonstra. Sequências de ações, jeitos de falar, movimentos e passos de uma rotina são demonstráveis. Estados internos e disposições, não. Quando o alvo é desse segundo tipo, a conversa com a equipe costuma virar para outra pergunta — qual é o comportamento observável por trás daquilo que se quer ver acontecer.
Existe uma tabela oficial — e ela não está aquiO relatório do NCAEP publica uma matriz que cruza cada prática com 13 tipos de resultado (comunicação, social, comportamento desafiador, acadêmico, brincar, motor, saúde mental e outros) e três faixas etárias: 0 a 5, 6 a 14 e 15 a 22 anos. Essa matriz é publicada como imagem, célula a célula. Nós não a reproduzimos: transcrever centenas de células à mão criaria um risco de erro que a sua decisão não deveria correr. Consulte a tabela no relatório original — e leve a pergunta para quem atende: “para qual resultado, e nesta idade, essa prática tem evidência?”
Perguntas frequentes
Modelação e modelagem são a mesma coisa?
Não, e essa é a troca de palavras mais comum de toda a lista. Modelação é demonstrar: alguém faz, a pessoa vê e passa a fazer igual. Modelagem é a tradução de shaping: o comportamento é construído aos poucos, reforçando aproximações sucessivas, sem que ninguém demonstre nada. Se a equipe usar uma palavra e você entender a outra, vocês sairão da reunião combinando coisas diferentes. Na dúvida, pergunte: alguém vai demonstrar, ou vamos reforçar aproximações? O verbete Modelagem (shaping) detalha a segunda.
Basta eu demonstrar que ele aprende?
A definição oficial é mais exigente do que “demonstrar”: ela fala em uma demonstração que leva a pessoa a usar o comportamento e a adquiri-lo. Na prática, isso quer dizer que precisa haver a vez dela logo depois, oportunidades repetidas e, quase sempre, alguma ajuda combinada para a primeira tentativa. Demonstrar e seguir em frente não é modelação — é só um adulto fazendo algo por perto.
Meu filho não imita. A modelação está descartada?
Não necessariamente, mas é uma informação importante para a equipe. Imitar é, ele mesmo, um repertório que pode ser ensinado, e existem formas de demonstração mais fáceis de acompanhar — o modelo parcial, o modelo em vídeo, o modelo feito pelo colega. Essa é exatamente a conversa a ter com quem acompanha seu filho: o que já aparece quando alguém demonstra, e o que ainda não. Nada nesta página substitui essa avaliação individual.
Vídeo é melhor do que demonstrar ao vivo?
Esta página não tem como responder isso. O que dá para dizer com segurança é que a revisão trata a videomodelação como uma categoria própria, com contagem de estudos separada — e que cada formato tem vantagens práticas evidentes: o vídeo é sempre igual e pode ser revisto quantas vezes for preciso; o modelo ao vivo se ajusta na hora e acontece onde a coisa realmente vai ser feita. Qual usar, e quando, é decisão da equipe, caso a caso.
Para saber mais
- Hume, K.; Steinbrenner, J. R.; Odom, S. L. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032, 2021.
- Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. Chapel Hill: The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, NCAEP, 2020.
- Autism Focused Intervention Resources & Modules (AFIRM) — módulo Modeling. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. Disponível em afirm.fpg.unc.edu.
- Cobertura da revisão: 1990–2017. Pesquisa publicada depois disso não está contabilizada aqui.
De onde vem esta informação
Esta página resume o que a revisão do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP) encontrou sobre esta prática. A revisão reuniu estudos publicados entre 1990–2017.
Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2020). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team.
Hume, K., Steinbrenner, J. R., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2021). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032.
Esta página tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Ela não indica nem recomenda uma intervenção para uma pessoa específica — cada caso exige avaliação individualizada.