verifiedPrática Baseada em Evidências

Ensaio Clínico Randomizado

O sorteio que separa o efeito do tratamento do que apenas aconteceu junto — o desenho mais forte para responder se uma intervenção funciona.

boltEm resumo

O ensaio clínico randomizado (ECR) é o estudo em que se sorteia quem recebe o tratamento testado e quem fica no grupo de comparação. O sorteio é o coração do método: ele distribui ao acaso tudo o que poderia diferenciar os grupos — inclusive o que ninguém pensou em medir. Assim, se no fim houver diferença entre eles, a explicação mais plausível é o próprio tratamento. É por isso que o ECR é considerado o desenho mais forte para responder “isso funciona?” — desde que seja bem conduzido e bem relatado.

Definição técnica

O ensaio clínico randomizado (ECR; em inglês, randomized controlled trial, RCT) é um estudo experimental e prospectivo no qual participantes elegíveis são alocados por um processo aleatório a dois ou mais braços — pelo menos um recebendo a intervenção sob investigação e pelo menos um servindo de comparação (placebo, tratamento usual, lista de espera ou outro tratamento ativo) — e depois acompanhados ao longo do tempo para que se comparem desfechos definidos antes do início. A alocação aleatória, somada ao sigilo da alocação e, quando viável, ao cegamento, é o que autoriza atribuir à intervenção a diferença observada entre os grupos. O primeiro ECR moderno costuma ser atribuído ao ensaio do Medical Research Council britânico com estreptomicina para tuberculose pulmonar, conduzido em 1947–1948 e delineado pelo estatístico Austin Bradford Hill.

Por que sortear muda tudo

Suponha que uma clínica ofereça um programa novo e, meses depois, mostre que quem participou está melhor. Parece convincente — até percebermos quantas outras explicações continuam de pé. Talvez as famílias mais organizadas tenham sido as que procuraram o programa. Talvez os casos mais leves tenham sido os aceitos. Talvez todo mundo melhorasse de qualquer jeito, com o tempo. O desafio de qualquer pesquisa sobre tratamento é este: separar o que a intervenção causou do que apenas aconteceu junto.

A saída seria comparar cada pessoa consigo mesma em dois universos paralelos: um em que ela recebe o tratamento e outro em que não recebe. Como isso é impossível, o ECR faz o melhor substituto disponível — constrói dois grupos que só se diferenciam pelo acaso. E o instrumento para isso é justamente abrir mão de escolher: ninguém decide quem vai para onde; um procedimento aleatório decide.

O ganho é sutil e enorme. Emparelhar grupos “na mão” só equilibra aquilo que lembramos de medir — idade, gravidade, escolaridade. O sorteio equilibra também o que não sabemos nem nomear: motivação, apoio familiar, sono, mil fatores invisíveis. Nenhum outro delineamento consegue isso.

Participantes elegíveis SORTEIO Grupo A · intervenção recebe o tratamento testado Grupo B · controle placebo ou tratamento usual Acompanhamento no tempo — as mesmas medidas nos dois grupos Comparar os desfechos: a diferença estima o efeito da intervenção
O caminho de um ensaio randomizado. Como só o acaso separou os dois grupos no começo, a diferença encontrada no fim pode ser creditada ao que os distinguiu no meio — a intervenção.

As travas que protegem um ensaio

Sortear é necessário, mas não basta. Um ensaio confiável combina o sorteio com quatro salvaguardas, cada uma cuidando de um ponto por onde o viés poderia voltar a entrar. Toque nas abas para conhecer cada uma:

Ninguém pode adivinhar o próximo sorteio

O sigilo da alocação garante que quem recruta e inclui participantes não consiga prever para qual braço o próximo irá — com envelopes opacos, numerados e lacrados, ou com uma central independente que informa a alocação só depois da inclusão. Sem esse cuidado, alguém pode, mesmo sem má-fé, segurar um caso mais grave até “cair” o grupo que considera melhor para ele — e o sorteio perde todo o valor. Atenção: sigilo da alocação não é a mesma coisa que cegamento; ele age no momento em que a pessoa entra no estudo.

Quem sabe o quê, e por que isso importa

Cegamento (ou mascaramento) é manter sem saber quem recebeu o quê: participantes, quem aplica a intervenção, quem avalia os desfechos e quem analisa os dados. Serve para conter a expectativa dos dois lados — que influencia tanto o que a pessoa sente quanto o que o avaliador registra. Em psicoterapia, educação e intervenções comportamentais, cegar o participante e o profissional é em geral impossível: todos sabem que está havendo terapia. A solução aceita é cegar quem avalia o desfecho e preferir medidas menos suscetíveis à interpretação de quem observa.

Cada um fica no grupo em que foi sorteado

Na análise por intenção de tratar (intention to treat), cada participante é analisado no grupo para o qual foi sorteado — mesmo que tenha faltado às sessões, abandonado o estudo ou trocado de tratamento. Parece contraintuitivo, mas é o que preserva o sorteio: analisar apenas quem “fez tudo direitinho” recria justamente aquelas diferenças entre os grupos que a randomização havia eliminado, já que aderir ao tratamento não é um acaso. O resultado tende a ser mais conservador — e mais parecido com o que acontece na vida real.

O plano é publicado antes de haver resultado

Antes de recrutar o primeiro participante, o protocolo e o desfecho primário são registrados publicamente em plataformas como o ClinicalTrials.gov ou o brasileiro ReBEC (Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos, mantido pela Fiocruz e integrado à rede internacional de registros da OMS). Isso expõe duas manobras comuns: trocar o desfecho depois de ver quais medidas “deram certo” e engavetar o estudo cujo resultado desagradou. Grandes revistas científicas exigem esse registro prospectivo como condição para publicar.

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O sorteio não faz milagre em amostra pequenaRandomizar torna os grupos comparáveis em média, não idênticos. Em estudos com poucos participantes, o acaso pode deixar um dos braços com casos mais graves só por azar. Por isso todo bom ensaio publica uma tabela comparando as características iniciais dos dois grupos e muitos usam randomização estratificada — sortear dentro de subgrupos (por idade, gravidade ou local de atendimento) para que fiquem bem distribuídos.

Nem todo ensaio randomizado tem o mesmo formato

O sorteio é sempre o mesmo princípio, mas o desenho se adapta à pergunta e ao contexto. Toque nos cartões para ver os formatos mais usados:

Como se julga a qualidade de um ensaio

Ler um ensaio com olhar crítico não exige ser estatístico: existem ferramentas públicas que organizam o que procurar. Duas são incontornáveis.

O CONSORT é o roteiro de como relatar um ensaio — uma lista de itens essenciais mais um diagrama que mostra o caminho dos participantes, do recrutamento à análise. Publicado pela primeira vez em 1996, foi atualizado em 2001, 2010 e 2025, versão em que passou a ter 30 itens. Quando um artigo não conta algo que o CONSORT pede — como o método usado para sortear ou quantas pessoas saíram pelo caminho —, essa omissão já é, por si só, um sinal de alerta.

Já o RoB 2, da Cochrane, é a ferramenta recomendada para avaliar o risco de viés de um resultado de ensaio randomizado. Ela examina cinco domínios:

  • o processo de randomização;
  • os desvios das intervenções pretendidas — o que de fato aconteceu depois do sorteio;
  • os dados de desfecho faltantes — quem sumiu do estudo, e se isso pode ter distorcido o resultado;
  • a mensuração do desfecho;
  • a seleção do resultado relatado — se o que foi publicado é o que estava planejado.

Cada domínio recebe um julgamento — baixo risco, algumas preocupações ou alto risco —, e é a combinação deles que diz o quanto aquele resultado, especificamente, merece confiança.

O que o ensaio randomizado não resolve

Estar no alto da hierarquia de evidências não faz do ECR uma resposta para tudo. Ele tem limites reais, e conhecê-los faz parte de lê-lo bem:

  • Eficácia não é efetividade. Ensaios costumam selecionar participantes com critérios estritos e oferecer a intervenção em condições ideais, com equipe treinada e supervisão. O resultado responde “funciona nessas condições?”, não necessariamente “funciona na clínica de bairro, com as pessoas que chegam lá”.
  • Eventos raros e efeitos de longo prazo escapam. Um estudo com algumas centenas de participantes acompanhados por alguns meses dificilmente detecta um efeito adverso incomum ou o que acontece dez anos depois.
  • Nem tudo pode ser sorteado. Seria antiético randomizar pessoas para uma exposição prejudicial. Para muitas perguntas, só restam desenhos observacionais — e é neles que a resposta terá de ser buscada.
  • Custa caro e demora. Ensaios grandes exigem financiamento, equipe e anos de trabalho, o que ajuda a explicar por que áreas menos financiadas têm menos ECRs disponíveis.
  • A resposta é sobre a média do grupo. Saber que um tratamento funciona “em média” não diz se vai funcionar para uma pessoa específica. Essa outra pergunta é o terreno dos delineamentos de sujeito único, muito usados na análise do comportamento, que acompanham a mesma pessoa comparando fases com e sem a intervenção. Os dois tipos de estudo são complementares, não rivais.
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Dois enganos frequentes“É um ensaio randomizado, então está provado.” O rótulo indica o potencial do desenho, não o cuidado com que ele foi executado: um ECR sem sigilo de alocação, com muitas perdas de seguimento ou com o desfecho trocado no meio do caminho pode enganar tanto quanto um estudo frágil. E o engano oposto: “ensaio randomizado é coisa de remédio.” Psicoterapias, programas educacionais e intervenções comportamentais são testados em ECRs há décadas — o que muda é a forma de cegar e a escolha do comparador, não a lógica do sorteio.

randomização sigilo da alocação cegamento (mascaramento) intenção de tratar grupo controle CONSORT

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Para saber mais

  1. Medical Research Council. “Streptomycin treatment of pulmonary tuberculosis: a Medical Research Council investigation”. British Medical Journal, 1948.
  2. Hopewell, S., Chan, A.-W., Collins, G. S. et al. “CONSORT 2025 statement: updated guideline for reporting randomised trials”. BMJ / The Lancet / JAMA, 2025.
  3. Sterne, J. A. C. et al. “RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials”. BMJ, 2019.
  4. Schulz, K. F., Grimes, D. A. “Allocation concealment in randomised trials: defending against deciphering”. The Lancet, 2002.
  5. Higgins, J. P. T., Thomas, J. et al. (eds.). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions. Cochrane.
  6. Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) — Fiocruz. Disponível em ensaiosclinicos.gov.br.
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Este verbete tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Cada pessoa é única — para um caso específico, procure orientação individualizada.

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