diversity_1 Quem ensina e por qual meio

Ensino apoiado por tecnologia (TAII)

Technology-Aided Instruction and Intervention

boltEm resumo

Tablet, computador, aplicativo, vídeo, robô, realidade virtual: quando a tecnologia é o elemento central de um ensino planejado, a revisão chama isso de ensino apoiado por tecnologia. O ponto que decide tudo é o que está por trás da tela: objetivo definido, passos, ajuda que vai diminuindo e registro do que mudou. A tecnologia é o meio, não o ingrediente ativo — um aplicativo sem plano de ensino é só um aplicativo.

Nome oficial · Technology-Aided Instruction and Intervention (TAII)

Ensino ou intervenção em que a tecnologia é o elemento central, especificamente projetada ou empregada para apoiar a aprendizagem ou o desempenho de um comportamento ou habilidade.

A categoria é ampla de propósito: cabe nela desde um software de ensino até o uso de dispositivos que registram, apresentam ou dão retorno automático. O que a delimita não é o aparelho, e sim o fato de ele ser projetado ou empregado para apoiar uma aprendizagem específica.

O que é, na prática

Existe uma diferença enorme entre uma criança usando um tablet e uma criança aprendendo com um tablet. No primeiro caso, o aparelho ocupa o tempo. No segundo, ele apresenta uma tarefa que alguém definiu, oferece uma ajuda que vai sendo retirada aos poucos, dá retorno imediato e devolve informação sobre o que a criança acertou, errou e demorou. É esse segundo caso que a categoria descreve.

O detalhe que costuma passar despercebido está no meio da definição oficial: a tecnologia precisa ser especificamente projetada ou empregada para apoiar aquela aprendizagem. A palavra “empregada” é generosa — um aplicativo comum pode entrar aqui, desde que seja usado dentro de um plano. Mas a palavra “especificamente” é exigente: sem alvo definido, não há prática, há apenas uso de aparelho.

Vale notar também o que a tecnologia costuma fazer bem: repetir sem se cansar, apresentar exatamente o mesmo estímulo todas as vezes, medir o tempo de resposta, dar retorno na hora e reduzir a carga social de uma tarefa que, com uma pessoa na frente, pode ser mais difícil de encarar. Nenhuma dessas propriedades substitui o plano — todas ficam mais úteis dentro de um.

info

Baixar o aplicativo não é fazer a intervençãoA revisão avaliou práticas, não produtos de loja de aplicativos. Nenhum aplicativo herda evidência por ser da mesma categoria de outro que foi estudado, e um selo de “aprovado para autismo” na descrição do produto não significa nada em termos de pesquisa. O que carrega a evidência é o arranjo de ensino: o que se quer ensinar, como a ajuda é oferecida e retirada, e como se verifica que a pessoa aprendeu. Sem isso por trás, o que resta é uma tela bonita.

Como aparece no dia a dia

O mesmo princípio muda de forma conforme o ambiente. Explore os três contextos — em cada um há também duas perguntas que valem a pena levar para a equipe que atende:

Em casa

O tablet entra num horário combinado e com uma finalidade combinada: praticar a sequência de uma tarefa que a criança está aprendendo, ou conferir a agenda do dia. Depois, o que foi praticado precisa aparecer fora da tela — se o aplicativo ensinou a pedir, a família cria a chance de pedir de verdade no lanche. O aparelho abre a porta; quem atravessa é a vida ao redor.

Para perguntar: o que exatamente está sendo ensinado no aplicativo que ele usa, e como eu percebo isso no dia a dia? Como faço para que ele use fora da tela o que treinou nela?

Na escola

Um software que apresenta a tarefa acadêmica no ritmo do aluno, com retorno imediato e registro do desempenho; um dispositivo que apresenta o passo a passo de uma atividade prática; um recurso que permite responder por escrita ou por seleção quando falar na frente da turma é a parte mais difícil. A tecnologia aqui costuma servir para dar acesso, e não para isolar o aluno no fundo da sala.

Para perguntar: o uso do dispositivo está previsto no plano dele, com objetivo escrito? Ele fica mais perto ou mais longe dos colegas quando usa o recurso?

Na terapia

Programas de computador ou tablet usados dentro da sessão, com metas definidas, dados coletados a cada tentativa e um plano explícito para levar o que foi aprendido para fora do software. Aqui é comum a tecnologia se combinar com outras práticas da lista — por exemplo, um vídeo gravado dentro de uma estratégia de videomodelação.

Para perguntar: quais dados o programa gera, e quem lê esses dados? O que acontece com a meta quando o software mostra que ele já domina a tarefa?

Aplicativo sozinho, sem plano tempo de uso — e ninguém sabe o que foi aprendido, nem se aquilo sai da tela o mesmo aparelho nos dois casos Plano de ensino objetivo, ajuda planejada, registro a mesma tela vira ensino: passos claros, ajuda que diminui, registro do que mudou — e a habilidade também fora do aplicativo
O aparelho é o mesmo nas duas cenas. O que muda o resultado não está dentro da tela: está no plano que decide o que ensinar, como ajudar e como saber se funcionou.

O que a revisão do NCAEP encontrou

Esta prática foi sustentada pelos seguintes números de estudos, na revisão que cobriu de 1990 a 2017:

40estudos no total
1990 a 2017
10entre 1990 e 2011
(22 anos)
30entre 2012 e 2017
(6 anos)

Comparação de volume de pesquisa — não de força do efeito nem de qualidade. A barra cheia seria a prática mais estudada da lista (Ajudas e dicas, 140 estudos).

Repare que os dois períodos têm tamanhos diferentes: o primeiro cobre 22 anos e o segundo apenas 6. Uma prática com números parecidos nas duas colunas está, na verdade, sendo estudada bem mais rápido agora do que antes.

Aqui vale um lembrete de contexto — a revisão não explica as razões dessa distribuição, mas boa parte dos aparelhos que hoje se usa nem existia no começo da janela. 30 dos 40 estudos estão nos seis anos finais — e mesmo assim a revisão para em 2017. Tudo o que veio depois, em dispositivos e em pesquisa, está fora desta contagem.

warning

O que esse número diz — e o que ele não dizDiz: quanta pesquisa de qualidade metodológica suficiente foi encontrada sobre esta prática entre 1990 e 2017. Não diz: que ela é melhor que uma prática com menos estudos; que funciona para todo mundo; que funciona para qualquer objetivo; nem o tamanho do efeito. Práticas mais antigas e mais fáceis de estudar acumulam naturalmente mais artigos — isso é história da pesquisa, não superioridade. Entenda melhor.

Para quem e para quê

Esta prática faz uma coisa: coloca a tecnologia no centro da entrega do ensino — para apresentar a tarefa sempre igual, repetir sem cansar, dar retorno na hora, registrar o desempenho e, em muitos casos, tirar da cena a pressão social de ter alguém observando. É isso que ela faz — e é diferente de dizer para quem ou para qual objetivo ela “estaria indicada”.

Sobre tempo de tela, cabe uma resposta honesta: esta revisão não estabeleceu limite de minutos, e qualquer número apresentado como se viesse dela seria invenção. O que faz sentido perguntar não é quanto, e sim o que aquele tempo está fazendo. Uso com objetivo, com começo e fim combinados e com o aprendizado saindo da tela é uma coisa; tela como babá eletrônica em tempo indeterminado é outra. E vale olhar o que o tempo de tela está ocupando o lugar de — sono, movimento, brincadeira com gente, refeição junto. Nada disso pede pânico: pede combinação explícita, na família e com a equipe.

table_chart

Existe uma tabela oficial — e ela não está aquiO relatório do NCAEP publica uma matriz que cruza cada prática com 13 tipos de resultado (comunicação, social, comportamento desafiador, acadêmico, brincar, motor, saúde mental e outros) e três faixas etárias: 0 a 5, 6 a 14 e 15 a 22 anos. Essa matriz é publicada como imagem, célula a célula. Nós não a reproduzimos: transcrever centenas de células à mão criaria um risco de erro que a sua decisão não deveria correr. Consulte a tabela no relatório original — e leve a pergunta para quem atende: “para qual resultado, e nesta idade, essa prática tem evidência?”

Programas com nome próprio dentro desta prática

A revisão identificou 10 intervenções manualizadas que, sozinhas, atendem aos critérios de evidência — as chamadas MIMC (Manualized Interventions Meeting Criteria, intervenções manualizadas que atendem aos critérios). Duas delas estão aqui dentro:

  • FaceSay®
  • Mindreading
inventory_2

O que é um MIMC — e por que ele não é uma categoria à parteUm MIMC é um programa com nome próprio, manual publicado e protocolo definido, cujo conjunto de estudos satisfaz sozinho os critérios de evidência. Ele não vira uma categoria nova: é contado dentro da prática maior, porque é um jeito específico de fazê-la. Repare no contraste com a prateleira das lojas de aplicativos: aqui são programas identificados pelo nome, com protocolo descrito e estudos publicados — e não softwares que se anunciam sozinhos. Vale perguntar qual programa é usado, se existe manual, quem foi treinado nele e como o acompanhamento é feito.

Perguntas frequentes

Qual aplicativo eu devo comprar?

A revisão não responde a essa pergunta, e desconfie de quem responder com muita segurança. O que ela avaliou foi a prática — tecnologia empregada dentro de um plano de ensino —, e não produtos específicos do mercado. Na hora de escolher, as perguntas úteis são outras: o que quero ensinar com isso, quem definiu esse objetivo, como a ajuda é oferecida e retirada dentro do programa, quais dados ele gera e o que vou fazer com eles. Um aplicativo escolhido sem essas respostas é uma aposta, mesmo quando é caro.

Quanto tempo de tela é aceitável?

Não há um número que possa ser tirado desta revisão — ela não mediu isso, e inventar um limite seria pior do que admitir a lacuna. O que dá para oferecer é um critério de qualidade em vez de quantidade: o uso tem objetivo e hora combinada? O que foi aprendido aparece fora da tela? O aparelho está somando ao dia ou substituindo sono, movimento e convivência? Se a tela virou a única forma de acalmar, vale conversar sobre isso com a equipe — não como culpa, mas como um dado do caso.

Se ele aprende no tablet, aprende também na vida real?

Não automaticamente — e essa é uma armadilha conhecida desta prática. O que se aprende numa tela pode ficar preso à tela se ninguém planejar a passagem. Um bom plano já nasce com essa ponte descrita: onde, com quem e em que situação a habilidade vai ser praticada fora do aplicativo, e como se registra que isso aconteceu. Pergunte por essa parte do plano, porque ela costuma ser a que fica de fora.

Vídeo entra aqui também?

Depende do papel que o vídeo cumpre. Quando ele é o meio pelo qual a pessoa observa um modelo executando a tarefa, a prática correspondente é a videomodelação, que tem categoria própria na lista. O ensino apoiado por tecnologia descreve os casos em que o dispositivo é o elemento central do ensino em si. Na vida real as duas coisas se encontram bastante, e não há problema nisso: o que importa é que alguém saiba dizer o que está sendo feito, e por quê.

ensino apoiado por tecnologia plano de ensino generalização retorno imediato tempo de tela coleta de dados

Para saber mais

  1. Hume, K.; Steinbrenner, J. R.; Odom, S. L. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032, 2021.
  2. Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. Chapel Hill: The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, NCAEP, 2020.
  3. Autism Focused Intervention Resources & Modules (AFIRM) — módulo Technology-Aided Instruction and Intervention. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. Disponível em afirm.fpg.unc.edu.
  4. Cobertura da revisão: 1990–2017. Pesquisa publicada depois disso não está contabilizada aqui.

verifiedDe onde vem esta informação

Esta página resume o que a revisão do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP) encontrou sobre esta prática. A revisão reuniu estudos publicados entre 1990–2017.

Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2020). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team.

Hume, K., Steinbrenner, J. R., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2021). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032.

Consultar o relatório original open_in_new

info

Esta página tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Ela não indica nem recomenda uma intervenção para uma pessoa específica — cada caso exige avaliação individualizada.

Práticas parecidas

Ver as 28 práticas com evidência para autismo arrow_forward

Quer conversar sobre a situação da sua família?

O Instituto Walden4 atende autismo (TEA), psicoterapia e desenvolvimento — e responde, sobre o próprio trabalho, as três perguntas deste módulo: quais práticas, para quais metas, medidas como. Se você é uma pessoa autista procurando informação para si, fale conosco também.

chat Falar pelo WhatsApp
chat