self_improvement Autonomia e autorregulação

Autogerenciamento (SM)

Self-Management

boltEm resumo

Nesta prática, quem observa, registra e avalia o próprio comportamento é a própria pessoa — e é ela quem entrega a si mesma a recompensa combinada. O adulto começa por perto, conferindo se o registro bate com a realidade, e vai saindo de cena. O que se ensina aqui não é uma tarefa: é um jeito de se acompanhar sem precisar de alguém lembrando.

Nome oficial · Self-Management (SM)

Ensino voltado a que a própria pessoa distinga comportamentos adequados de inadequados, monitore e registre com precisão o que faz, e recompense a si mesma quando age de forma adequada.

No Brasil aparece como autogerenciamento, automonitoramento, autorregistro, autoavaliação ou, de forma mais genérica, autocontrole.

O que é, na prática

Um adolescente carrega no bolso um cartão com cinco quadradinhos. A cada intervalo da aula, ele marca sozinho se estava na atividade ou não. No fim do dia, ele mesmo confere quantos quadradinhos ficaram marcados e, se bateu o combinado, ele mesmo pega o que combinou como recompensa. Ninguém precisou ficar por perto perguntando. Esse desenho simples contém as três peças da definição oficial — e cada uma delas é ensinada, uma por vez.

O detalhe que mais passa despercebido está numa palavra: a definição fala em monitorar e registrar com precisão. Não basta a pessoa marcar alguma coisa; ela precisa marcar o que de fato aconteceu. Por isso, no começo, alguém costuma registrar em paralelo e comparar os dois registros — não para pegar ninguém em falso, mas porque a precisão também é conteúdo de ensino. Só depois que os registros passam a coincidir é que a conferência do adulto pode ir embora.

O segundo detalhe é quem entrega a recompensa. Na definição, é a própria pessoa que se recompensa quando agiu como o combinado. Isso muda o papel do adulto de um jeito profundo: ele deixa de ser quem julga e passa a ser quem ajudou a montar o sistema. Enquanto o adulto for o dono do critério e da recompensa, ainda não é autogerenciamento — é um acordo com fiscal.

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“Se vira sozinho” não é o começo — é o fimAutogerenciamento não é entregar uma planilha e esperar que a pessoa se organize. É uma sequência de ensino: primeiro ela aprende a distinguir o comportamento-alvo de outros parecidos (o que conta como “estar na tarefa”?), depois aprende a registrar com precisão, depois aprende a avaliar o próprio registro e só então passa a administrar a consequência. Quando as etapas são puladas, o risco é um registro bonito e desconectado do que aconteceu — e a conclusão errada de que “ele não é capaz”.

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Quem definiu o que conta como “adequado”?Esta é a pergunta que sustenta a prática inteira. O critério precisa ser combinado com a pessoa, e precisa descrever algo que ela queira conseguir. Um sistema em que ela se pune internamente por características autistas — mexer as mãos, olhar para outro lado, se afastar do barulho — não é autogerenciamento: é autofiscalização, e a conta chega em ansiedade e cansaço. Veja estereotipias (stimming).

Como aparece no dia a dia

O mesmo princípio muda de forma conforme o ambiente. Em cada contexto há também duas perguntas que valem a pena levar para a equipe que atende:

Em casa

Um quadro na porta do quarto onde ele mesmo marca a rotina da noite — e escolheu quais itens entram. A recompensa é combinada antes e fica ao alcance dele, não trancada com o adulto. Nos primeiros dias vale conferir junto, comparando o que ele marcou com o que você observou; quando os dois coincidirem, a conferência sai. O papel de quem cuida muda de cobrador para parceiro de conferência — e depois some.

Para perguntar: quem definiu os itens do quadro, ele ou nós? Como sabemos que já dá para parar de conferir junto?

Na escola

Um cartão discreto na carteira, marcado por ele a cada intervalo combinado; um aplicativo que vibra de tempos em tempos; uma folha de checagem para conferir se o material da próxima aula já está separado. O ponto delicado aqui é a discrição: um sistema que expõe o aluno diante da turma pode ser recusado por ele, por melhor que seja no papel.

Para perguntar: o sistema é discreto o bastante para ele não se sentir exposto na turma? O professor sabe que quem marca é o aluno, e não ele?

Na terapia

Primeiro se ensina a discriminação, muitas vezes com vídeos ou exemplos e contraexemplos: isto conta, aquilo não conta. Depois entra o registro, com checagem de precisão em paralelo. Depois a autoavaliação e, por fim, a autoentrega da recompensa e a retirada gradual da checagem. Cada uma dessas etapas tem um critério para avançar — e vale pedir para ver escrito qual é.

Para perguntar: em qual etapa da sequência ele está agora, e qual é o critério para passar à próxima? O que vocês fazem quando o registro dele não bate com o de vocês?

QUEM FAZ ISTO É A PRÓPRIA PESSOA 1. Distinguir o que é adequado do que não é 2. Registrar com precisão o que de fato fez 3. Recompensar-se quando agiu como o combinado e o ciclo se repete — sem alguém por perto lembrando aqui, quem observa, registra e avalia é a própria pessoa
Repare em quem não aparece no desenho: o adulto não está em nenhuma das três caixas. Ele existe antes, montando o sistema com a pessoa — e sua saída de cena é o resultado, não um descuido.

O que a revisão do NCAEP encontrou

Esta prática foi sustentada pelos seguintes números de estudos, na revisão que cobriu de 1990 a 2017:

26estudos no total
1990 a 2017
14entre 1990 e 2011
(22 anos)
12entre 2012 e 2017
(6 anos)

Comparação de volume de pesquisa — não de força do efeito nem de qualidade. A barra cheia seria a prática mais estudada da lista (Ajudas e dicas, 140 estudos).

Repare que os dois períodos têm tamanhos diferentes: o primeiro cobre 22 anos e o segundo apenas 6. Uma prática com números parecidos nas duas colunas está, na verdade, sendo estudada bem mais rápido agora do que antes.

É exatamente o caso aqui: 14 estudos em 22 anos e 12 em 6. Em ritmo por ano, a segunda janela é bem mais densa que a primeira — sinal de que o interesse pelo tema estava crescendo quando a revisão fechou a contagem.

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O que esse número diz — e o que ele não dizDiz: quanta pesquisa de qualidade metodológica suficiente foi encontrada sobre esta prática entre 1990 e 2017. Não diz: que ela é melhor que uma prática com menos estudos; que funciona para todo mundo; que funciona para qualquer objetivo; nem o tamanho do efeito. Práticas mais antigas e mais fáceis de estudar acumulam naturalmente mais artigos — isso é história da pesquisa, não superioridade. Entenda melhor.

Para quem e para quê

O autogerenciamento faz uma coisa bem delimitada: muda quem controla o sistema. Observar, registrar, avaliar e administrar a consequência deixam de ser tarefas do adulto e passam a ser da própria pessoa. É isso que a prática faz — e é diferente de dizer para quem ou para qual objetivo ela “estaria indicada”.

Vale registrar uma coisa incômoda, e ela é sobre a pesquisa, não sobre a prática. Entre os 13 tipos de resultado que a revisão contabilizou, a autodeterminação — decidir sobre a própria vida, escolher, definir metas — é o menos estudado de todos: apenas 2 estudos, contra 332 de comunicação e 302 de social. Ou seja: o que a pesquisa do período menos mediu foi exatamente a capacidade de decidir sobre a própria vida.

insights

O ponto cego da listaUma revisão retrata o que foi pesquisado, não o que importa. Se quase ninguém estudou autodeterminação entre 1990 e 2017, isso diz muito mais sobre as prioridades de quem financiou e conduziu a pesquisa do que sobre o valor de decidir a própria vida. Ausência de estudos não é evidência de irrelevância — e um plano que só mira comportamento observável, sem nunca perguntar o que a pessoa quer, está seguindo o mapa da pesquisa em vez do mapa da vida dela. Veja onde a pesquisa se concentrou.

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Existe uma tabela oficial — e ela não está aquiO relatório do NCAEP publica uma matriz que cruza cada prática com 13 tipos de resultado (comunicação, social, comportamento desafiador, acadêmico, brincar, motor, saúde mental e outros) e três faixas etárias: 0 a 5, 6 a 14 e 15 a 22 anos. Essa matriz é publicada como imagem, célula a célula. Nós não a reproduzimos: transcrever centenas de células à mão criaria um risco de erro que a sua decisão não deveria correr. Consulte a tabela no relatório original — e leve a pergunta para quem atende: “para qual resultado, e nesta idade, essa prática tem evidência?”

Perguntas frequentes

Isso não é só uma tabelinha de recompensas?

A aparência é parecida, e a diferença está em quem faz o quê. Num quadro de recompensas comum, o adulto observa, decide se valeu e entrega o prêmio. No autogerenciamento, essas três coisas passam para a própria pessoa: ela observa, ela registra, ela confere e ela pega o que combinou. O material pode até ser o mesmo pedaço de papel — o que muda é de quem é a mão que marca.

E se ele marcar errado, ou marcar tudo certo de propósito?

Isso é esperado, e é por essa razão que a definição fala em registrar com precisão. A precisão é ensinada como qualquer outra habilidade: no começo, alguém registra em paralelo e os dois comparam; acertar o registro pode valer alguma coisa por si só. Quando os dois passam a coincidir com regularidade, a conferência externa vai saindo. Registro impreciso não é necessariamente má-fé: pode ser sinal de que a etapa da discriminação ainda não foi bem ensinada.

Meu filho é pequeno e não lê. Dá para usar mesmo assim?

A definição não exige leitura — exige que a pessoa consiga distinguir o comportamento-alvo e marcar de algum jeito. Na prática, isso costuma aparecer como carinhas, adesivos, fichas que se movem de um pote para outro, fotos. O que decide não é a idade no papel: é se a etapa da discriminação já foi ensinada e se o registro é simples o bastante para caber no momento em que precisa acontecer. Essa avaliação é da equipe que acompanha o caso.

Autogerenciamento substitui as outras práticas?

Não; ele costuma aparecer combinado com outras. Ensinar a discriminação inicial costuma envolver ajudas e dicas que depois são retiradas, e o trabalho sobre o que a pessoa pensa e diz a si mesma aparece nas estratégias cognitivo-comportamentais. As 28 práticas não são opções excludentes de um cardápio — costumam funcionar montadas juntas dentro de um plano.

autogerenciamento automonitoramento autorregistro autoavaliação autodeterminação retirada gradual de ajuda

Para saber mais

  1. Hume, K.; Steinbrenner, J. R.; Odom, S. L. et al. “Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review”. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032, 2021.
  2. Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. Chapel Hill: The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, NCAEP, 2020.
  3. Autism Focused Intervention Resources & Modules (AFIRM) — módulo Self-Management. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. Disponível em afirm.fpg.unc.edu.
  4. Cobertura da revisão: 1990–2017. Pesquisa publicada depois disso não está contabilizada aqui.

verifiedDe onde vem esta informação

Esta página resume o que a revisão do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP) encontrou sobre esta prática. A revisão reuniu estudos publicados entre 1990–2017.

Steinbrenner, J. R., Hume, K., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2020). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. The University of North Carolina at Chapel Hill, Frank Porter Graham Child Development Institute, National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team.

Hume, K., Steinbrenner, J. R., Odom, S. L., Morin, K. L., Nowell, S. W., Tomaszewski, B., Szendrey, S., McIntyre, N. S., Yücesoy-Özkan, Ş., & Savage, M. N. (2021). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51(11), 4013–4032.

Consultar o relatório original open_in_new

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Esta página tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por um profissional de saúde qualificado. Ela não indica nem recomenda uma intervenção para uma pessoa específica — cada caso exige avaliação individualizada.

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