Capítulo 02. Cultura e Práticas Culturais

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Márcio Borges Moreira
Instituto Walden4, Instituto de Educação Superior de Brasília

Vívica Lé Sénéchal Machado
Faculdades Integradas Pitágoras - FIP-Moc

João Claudio Todorov
Universidade de Brasília

Tabela de conteúdo

Introdução

O termo “cultura” é uma daquelas palavras que todos sabemos facilmente definir, mas apenas se não nos pedirem para fazermos isso. Usamos o termo cultura de tantas formas diferentes que quando temos que defini-lo acabamos criando alguma confusão sobre qual realmente é o significado do termo.

O conceito de cultura

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Cultura é um termo com várias acepções, com diferentes níveis de profundidade e de especificidade. O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Ferreira (1986), atribui ao conceito de cultura, entre outros, os seguintes significados: “o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade ou civilização (a cultura ocidental, a cultura dos esquimós)”; “o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores (civilização, progresso: A Grécia do sec. V a.C. atingiu o mais alto grau de cultura da sua época)”. O primeiro significado está claramente relacionado aos padrões de costumes de um povo. E o segundo, se refere aos diferentes níveis ou graus de cultura que um povo pode atingir, se tornando mais ou menos desenvolvida.

O termo cultura tem sido amplamente explorado por várias áreas do conhecimento como a Sociologia, Antropologia e Psicologia. Porém, em nenhuma dessas áreas há uma definição consensual do que seja cultura, o que demonstra a complexidade e riqueza da aplicação do termo. Dentro da antropologia, por exemplo, é possível encontrar uma diversidade de enfoques sobre o conceito: a) histórico – uma herança social, ou tradição, que é passada para futuras gerações; b) comportamental – comportamentos humanos aprendidos que formam um estilo de vida; c) normativo – ideais, valores ou regras para se viver; d) funcional – maneira como os humanos resolvem seus problemas de adaptação ao ambiente ou para viverem juntos; e) mental – complexo de idéias, ou hábitos aprendidos, que inibem os impulsos e distingue as pessoas dos animais; f) simbólico – significados arbitrariamente definidos que são compartilhados por uma sociedade. Essas diferentes concepções de cultura vão influenciar os diferentes posicionamentos dos diversos estudiosos da Antropologia com relação aos problemas de pesquisa investigados, seus métodos e interpretações acerca desse fenômeno (Kroeber & Kluckhohn, 1952, citado por Bodley, 1994).

Laraia (1986/2006, pp. 48-49) descreve outro exemplo da diversidade dos usos do conceito de cultura apresentando um resumo da contribuição do antropólogo Alfred Kroeber para ampliação do conceito de cultura:

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1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações.
2. O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou (...).
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em vez de modificar para isto o seu aparato biológico, o homem modifica o seu equipamento superorgânico.
4. Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu habitat.
5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que agir através de atitudes geneticamente determinadas.
6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o termo) que determina o seu comportamento e sua capacidade artística ou profissional.
7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo.
8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural, e criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções, tais como o primeiro homem que produziu fogo através do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular, o arco e a flecha etc. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isto, talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje. (Laraia, 1986/2006).

Apesar dessas definições particulares, atualmente, uma definição generalizada do conceito de cultura, sob uma perspectiva antropológica, se refere ao conjunto de padrões de comportamentos e pensamentos aprendidos socialmente, compartilhados por uma dada sociedade, que são reproduzidos e transmitidos de uma geração para outra (Bodley, 1994). Tal definição sustenta-se na proposta original de Tylor (1881, citado por Cabral & Nick, 2000) que conceitua cultura como o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, as artes, a moral, as tradições e costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.

A Psicologia, de forma geral, considera a cultura como uma forma de viver compartilhada por um grupo de pessoas, que inclui costumes, valores, suposições, tradições, etc, que influenciam e guiam o comportamento, tornando possível às pessoas sobreviver em seu meio (Berry 1992, citado por Huffman, Vernoy e Vernoy, 2001). O conceito varia, ainda, dentro dos diferentes enfoques do estudo psicológico (cultura e saúde mental; cultura e desenvolvimento cognitivo; cultura e aprendizagem; cultura e sexualidade, entre outros) e das diferentes abordagens da Psicologia.

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De acordo com Skinner (1953/2000, 1971/1983), o ambiente social é aquilo que chamamos de cultura. Assim que uma criança nasce, ela começa a interagir com as contingências ambientais às quais é exposta, que são, a maior parte delas, fornecidas por outras pessoas. A cultura se refere, então, às contingências de reforçamento social que geram e mantêm o comportamento dos membros de um determinado grupo social, cuja existência vai além do período de vida dos membros do grupo. Normalmente, essas contingências são formuladas por meio de regras e leis que constituem os costumes, tradições, etc., habituais de um povo: o modo como se vestem, comem, como criam os filhos, como se governam, e assim por diante. Ou seja, é um conjunto particular de condições no qual um grande número de pessoas se desenvolve e vive.

Definir cultura desta forma nos dá uma clara noção de que falar de cultura e falar de interações entre pessoas e seu ambiente, sendo este ambiente constituído essencialmente por outros membros da mesma espécie, ou mais especificamente, pelo comportamento de outros membros da mesma espécie. No entanto, geralmente não estamos interessados na cultura como um todo, mas sim aspectos específicos de uma cultura. É importante ressaltar aqui que, na perspectiva analítico-comportamental, o interesse não é fazer listas e listas de características de uma dada cultura, ou ficar fazendo comparações entre os itens dessas listas. O objetivo é identificar as variáveis responsáveis pelo surgimento, manutenção, mudança, e extinção (desaparecimento) de certos aspectos de uma cultura.

Se você, por exemplo, fosse transportado para o Brasil de 100 anos atrás, você encontraria pessoas usando roupas diferentes das suas, usando palavras e expressões diferentes das suas, entre outras coisas. No entanto, você perceberia também que certos valores, certas crenças e certos hábitos seriam muito parecidos com os seus. A esses aspectos da cultura de um grupo social podemos dar o nome práticas culturais. Neste sentido, nosso interesse, nosso objeto de estudo, não é, necessariamente, a cultura de um povo, mas – algumas – de suas práticas culturais. Por exemplo, um problema grave que enfrentamos hoje em dia é a poluição ambiental. Em última análise, a poluição ambiental é resultado do comportamento humano, é o resultado de alguns de nossos hábitos, de nossos pais e avós e que transmitimos também para nossos filhos, isto é, a poluição ambiental está intimamente ligada a algumas de nossas práticas culturais.

Cultura e “Natureza Humana”

National Geographic - UMBANDA - Tabu America Latina
Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que parecessem melhores, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros (Heródoto, 484-424 a.C., citado por Laraia, 1986/2006, p. 11).

Essas palavras do historiado grego Heródoto ilustram bem a influência que a cultura tem sobre nossas vidas, sobre nossos valores e nossas escolhas. Cada sociedade ou grupo de indivíduos possui uma cultura própria, suas práticas culturais específicas. Algumas práticas culturais são mais parecidas com as nossas e outras mais diferentes. Algumas são tão diferentes, e estamos sempre tão certos que nossos valores são os únicos corretos que, às vezes, olhamos para outras sociedades e as condenamos, esquecendo-nos que, para elas, seus valores são tão corretos quantos os nossos. Não podemos esquecer que o inverso também é verdade. Pessoas de outras culturas podem também nos olhar com estranheza. O antropólogo Roque Laraia (1986/2006, pp. 15-16) fornece alguns exemplos da diversidade da cultura:

No Japão (...) era costume que o devedor insolvente praticasse suicídio na véspera do ano novo, como uma maneira de limpar seu nome e o de sua família. O harakiri (suicídio ritual) sempre foi considerado como uma forma de heroísmo. Tal costume justificou o aparecimento dos “pilotos suicidas” durante a Segunda Guerra Mundial. (...) Entre os ciganos da Califórnia, a obesidade é considerada como um indicador de virilidade, mas também é utilizada para conseguir benefícios junto aos programas governamentais de bem-estar social, que a consideram como uma deficiência física. (...) A carne de vaca é proibida aos hindus, da mesma forma que a de porco é interditada aos muçulmanos. (...) O nudismo é uma prática tolerada em certas praias européias, enquanto que nos países islâmicos, de orientação xiita, as mulheres mal podem mostrar o rosto em público. Nesses mesmos países, o adultério é uma contravenção grave que pode ser punida com a morte ou longos anos de prisão. (...) em algumas regiões do Norte do Brasil a gravidez é considerada como uma enfermidade, e o ato de parir é denominado ‘descansar’.
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Somos tão influenciados por nossa cultura e conhecemos tão pouco a cultura de outros povos, atuais e ancestrais, que às vezes pensamos que certos valores que temos ou coisas que fazemos fazem parte de nossa natureza, fazem parte da natureza humana. Dizer que certa característica faz parte da natureza de um povo – ou de uma espécie – é o mesmo que dizer que tais características são inatas, que são determinadas pela nossa constituição genética. Essa concepção, a de que as diferenças entre as culturas são explicadas por características biológicas dos diferentes povos, é chamada de determinismo biológico. Certamente há uma natureza humana, mas muito do que pensamos ser parte dessa natureza, ou inato, é, na verdade, influência da cultura. Veja alguns exemplos e argumentos apresentados por Laraia (1986/2006, p. 17):
São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a ‘raças’ ou a outros grupos humanos. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros; que os alemães têm mais habilidade para a mecânica; que os judeus são avarentos e negociantes; que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros; (...) que os japoneses são trabalhadores (...) que os ciganos são nômades por instinto, e, finalmente, que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros, a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. (...) Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. Segundo Felix Keesing, “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura, se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado". Em outras palavras, se transportarmos para o Brasil, logo após o seu nascimento, uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja, ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação.

Laraia (1986/2006) argumenta que se uma criança sueca for transportada para o Brasil logo após seu nascimento, ela crescerá como uma criança brasileira, ou seja, se comportará caracteristicamente como um brasileiro. Talvez você esteja pensando “Mas eu conheço, por exemplo, pessoas com origem japonesa que nasceram e cresceram no Brasil e são tão organizadas, sérias e estudiosas como as crianças nascidas e criadas no Japão”. Todos nós temos exemplos assim, mas, provavelmente, nenhum deles é um contra-argumento para a proposição de Laraia. Primeiramente temos que verificar se a família que a criou não preserva as tradições de seu país de origem. Segundo, mesmo que a família nuclear não seja a responsável pela criação aos moldes do oriente, nossa sociedade costuma tratar de formas diferentes pessoas que têm características físicas distintas.

Uma criança japonesa, de “olhinhos puxados”, pode ser retirada do Japão logo após seu nascimento e ser criada por uma família tipicamente brasileira. Mas tanto a família quanto o grupo social no qual a criança está inserida poderá tratá-la de forma ligeiramente diferente de crianças que não tem olhinhos puxados, reforçando comportamentos dessa criança que se parecem com aqueles tipicamente atribuídos a crianças japonesas, pois isso já faz parte da nossa cultura.

Até aqui falamos de diferenças entre diferentes povos, mas todos somos seres humanos. Há, então, alguma coisa que é própria do ser humano, da natureza humana? Certamente sim, mas o número dessas características é menor do que pensamos. Vejamos mais alguns exemplos da influência da cultura sobre a “natureza humana” apresentados por Laraia (1986/2006, pp. 48-51):

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Gostaríamos, agora, antes de finalizarmos o capítulo, de voltar a discutir dois pontos que parecem, ao senso comum, mais controvertidos: (...) O primeiro deles refere-se ao ofuscamento dos instintos humanos pelo desenvolvimento da cultura. Na verdade, nem todos os instintos foram suprimidos; a criança ao nascer busca o seio materno e instintivamente faz com a boquinha o movimento de sucção. Mais tarde, movida ainda por instintos, procurará utilizar seus membros e conseguirá produzir sons, embora tenda a imitar os emitidos pelos adultos que a rodeiam. Mas, muito cedo, tudo o que fizer não será mais determinado por instintos, mas sim pela imitação dos padrões culturais da sociedade em que vive. (...) Mas onde fica o instinto de conservação? O instinto materno? O instinto filial? O Instinto sexual? etc. (...) Em primeiro lugar, tais palavras exprimem um erro semântico, pois não se referem a comportamentos determinados biologicamente, mas sim a padrões culturais. Pois se prevalecesse o primeiro caso, toda a humanidade deveria agir igualmente diante das mesmas situações, e isto não é verdadeiro. Vejamos: (...) Como falar de instinto de conservação quando lembramos as façanhas dos camicases japoneses (pilotos suicidas) durante a Segunda Guerra Mundial? (...) Como falar em instinto materno, quando sabemos que o infanticídio é um fato comum entre diversos grupos humanos? Tomemos o exemplo das mulheres Tapirapé, tribo Tupi do Norte do Mato Grosso, que desconheciam quaisquer técnicas anticoncepcionais ou abortivas e eram obrigadas, por crenças religiosas, a matar todos os filhos após o terceiro. Tal atitude era normal e não criava nenhum tipo de culpa entre as participantes do infanticídio. (...) Como falar em instinto filial, quando sabemos que os esquimós conduziam seus velhos pais para as planícies geladas para serem devorados pelos ursos? (...) Como falar em instinto sexual? Muitos são os casos conhecidos de adolescentes, crescidos em contextos puritanos, que desconheciam completamente como agir em relação aos membros do outro sexo, simplesmente porque não tiveram possibilidade de presenciar um ato sexual e ninguém os ter esclarecido sobre tais atitudes.

Alguns dos exemplos de Laraia (1986/2006) são tão chocantes que chamaríamos pessoas que comentem tais atos de desumanas. De acordo com nossa cultura, nossos valores, elas são desumanas sim, mas apenas de acordo com nossos padrões. Essas pessoas continuam sendo seres humanos no sentido de fazer parte da mesma espécie que nós. Esses exemplos nos mostram o quanto é forte a influência da cultura sobre nossos comportamentos e nossos valores. Mostram também o quanto é importante compreendermos a cultura.

Temos que ter muito cuidado ao explicarmos comportamentos a partir de instintos. Geralmente falamos de instintos, no sentido de “Isso é próprio da natureza humana” quando não conhecemos bens as causas dos comportamentos das pessoas, ou não conhecemos pessoas que agem de forma diferente. Um critério bem simples pode ser usado para “tirarmos a prova”: se pessoas de outros lugares não fazem como fazemos, então é aprendido, é cultural. E temos que procurar com cuidado, pois às vezes apenas alguns povos, muito distantes do nosso conhecimento, agem de forma diferente da nossa.

Outro exemplo de que muito daquilo que pensamos serem características inatas de certos povos são, na verdade, produto da cultura pode ser encontrado no documento Declaração Sobre a Raça (UNESCO, 1950), produzido por importantes cientistas da década de 50 sob encomenda da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO):

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(...) 10 – Os dados científicos de que dispomos no momento presente não corroboram a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças entre as culturas e as obras da civilização dos diversos povos ou grupos étnicos. Ao contrário, ensinam eles que tais diferenças se explicam antes de tudo pela história cultural de cada grupo. Os fatores que desempenharam um papel preponderante na evolução intelectual do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. Essa dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. Constitui, de fato, um dos caracteres específicos do Homo sapiens.
11 – Jamais foi possível demonstrar de modo decisivo a existência de diferenças inatas de temperamento entre grupos humanos. Por outro lado, é certo que, seja qual for a natureza das diferenças inatas que possa haver entre os grupos, elas são em grande parte apagadas pelas diferenças individuais e pelas que derivam do meio.
12 – Nem a personalidade nem o caráter dependem da raça. Em todos os grupos humanos encontram-se tipos muito variados de personalidade e de caráter, e não há razão para crer que certos grupos sejam mais favorecidos que outros nesse setor. (...)
15 – II - No estado atual de nossos conhecimentos o fundamento da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros por traços psicologicamente inatos, quer se trate da inteligência quer do temperamento, ainda não foi provado. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é aproximadamente o mesmo em todos os grupos étnicos.
15 – III. Os estudos históricos e sociológicos corroboram a opinião segundo a qual as diferenças genéticas não têm importância na determinação das diferenças culturais e sociais existentes entre grupos diferentes de Homo sapiens; e as transformações sociais e culturais no seio dos diferentes grupos foram, no seu conjunto, independentes das modificações da sua constituição hereditária. Viram-se transformações sociais consideráveis que não coincidem absolutamente com as alterações do tipo racial.

As idéias de Jared Diamond

O biólogo norte-americano Jared Diamond publicou um livro chamado Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas (1997/2005). No prefácio desta obra, que rapidamente virou um best-seller no mundo todo, Diamond nos alerta para o racismo embutido em muitas de nossas idéias e teorias sobre o desenvolvimento das diversas culturas. Diamond conta que a idéia de escrever Armas, Germes e Aço surgiu após uma conversa com um líder local, chamado Yali, de uma ilha na Nova Guiné, onde Diamond fazia pesquisas sobre os pássaros locais. Durante a conversa com Yali, este faz a seguinte pergunta a Diamond:

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Por que vocês, brancos, produziram tanto ‘cargo’ e trouxeram tudo para a Nova Guiné, mas nós, negros, produzimos tão pouco ´cargo´? (Diamond, 1997/2005, p. 14).

Em um primeiro momento Diamond (1997/2005) achou tal pergunta bastante simples, entretanto, ao pensar para tentar respondê-la, Diamond percebeu que a pergunta não era tão simples assim. E ao pensar sobre o assunto, Diamond foi reformulando esta pergunta concluindo que a pergunta de Yali remete a uma reflexão sobre as origens da desigualdade social no mundo moderno.

(...) por que a riqueza e o poder foram distribuídos dessa forma e não de outra qualquer? Por exemplo, por que os índios americanos, os africanos e os aborígines australianos não dizimaram, subjugaram ou exterminaram os europeus e os asiáticos? (...) por que o desenvolvimento humano avançou em ritmos desiguais nos diferentes continentes? (Diamond, 1997/2005, p. 15).

Diamond (1997/2005) nos alerta (ou nos lembra) que muitas das tentativas de se explicar tal desigualdade são racistas:


Armas germes e Aço 1/3 - Saindo do Jardim do Éden - 1/6
(...) a explicação mais comum envolve implícita ou explicitamente a existência de diferenças biológicas entre os povos. Nos séculos após 1500, à medida que os exploradores europeus perceberam as enormes diferenças entre os povos do mundo em matéria de tecnologia e organização política, eles chegaram à conclusão de que isso se devia a diferenças em habilidades inatas. (...) Os europeus passaram a ser considerados geneticamente mais inteligentes do que os africanos e, especialmente, do que os aborígines australianos. (...) A objeção a estas explicações racistas não se limita ao fato de que elas são repugnantes, mas envolve também a constatação de que estão erradas. Faltam provas seguras da existência de diferenças de inteligência humana que resultem em diferenças tecnológicas. (...) Especialistas em psicologia cognitiva fizeram intensas pesquisas em busca de diferenças de QI entre povos de diferentes origens geográficas que agora vivem no mesmo país. Um grande número desses profissionais – brancos, norte-americanos – tentou durante muitas décadas demonstrar que seus conterrâneos negros de origem africana são menos inteligentes que os brancos norte-americanos de origem européia. Como é sabido, contudo, a comparação foi feita entre pessoas com grandes diferenças em seu ambiente social e em suas oportunidades educacionais. Este fato cria dificuldades duplas para as tentativas de testar a hipótese de que as diferenças intelectuais podem explicar as diferenças tecnológicas. Primeiro, porque mesmo nossa capacidade cognitiva como adultos é fortemente influenciada pelo ambiente social (...) o que torna difícil distinguir influências genéticas preexistentes. Segundo, porque testes de capacidade cognitiva (como os testes de QI) tendem a medir o aprendizado cultural e não apenas a inteligência inata, o que quer que ela signifique. (...) os esforços dos psicólogos não conseguiram estabelecer, de modo convincente, a suposta deficiência genética nos QIs dos povos não-brancos. (Diamond, 1997/2005, pp. 17-20).

Talvez, o simples fato de raramente nos perguntarmos por que, por exemplo, foram os europeus que dominaram Incas e Astecas, e não o contrário, já seja uma evidência de um racismo velado. Diamond (1995/2007) fornece interessantes análises e fatos que nos permitem entender, de uma forma isenta, porque alguns povos dominaram e outros foram dominados:

A história seguiu diferentes rumos para os diferentes povos devido às diferenças entre os ambientes em que viviam e não devido a diferenças biológicas entre os povos (Diamond, 1997/2005, p. 25).

A Figura 1 mostra, esquematicamente, o desenvolvimento das idéias de Diamond (1997/2005) ao longo de seu livro, desde o que ele chamou de fatores próximos (ou explicações imediatas) e fatores últimos (ou explicações fundamentais). No capítulo 2 de Armas, Germes e Aço, intitulado Uma experiência natural de história, Diamond apresenta, em linhas gerais, a tese de seu livro, descrevendo a história de duas tribos distintas da Nova Zelândia: os morioris e os maoris.

Em dezembro de 1935 os maoris praticamente dizimaram os morioris. Os morioris eram um povo pacífico e cordial, com uma população bem menor que as dos maoris, que eram um povo guerreiro e hostil. O que torna esse evento interessante para o desenvolvimento da tese central de Diamond (1997/2005) é o fato de que maoris e morioris, menos de um milênio antes do fatídico encontro, eram um mesmo povo. Como membros de uma mesma cultura tornam-se tão diferentes em tão pouco tempo? Diamond explica as diferenças surgidas entre esses dois povos a partir das diferenças dos locais nos quais cada tribo se desenvolveu após aqueles que futuramente se tornaram os morioris deixaram o local onde viviam para colonizar outros domínios.

Figura 1. Fatores que levaram alguns povos a serem capazes de dominar outros povos. (Adaptado da Figura 4.1, p. 85 de Diamond, 1997/2005).

Questões para estudo

  1. Defina Cultura e Práticas Culturais.
  2. Explique o que Laraia (1986/2006) quer dizer com o “ofuscamento dos instintos humanos pelo desenvolvimento da cultura”. Use exemplos para do texto para ilustrar sua resposta.
  3. O que Laraia (1986/2006) nos diz sobre os instintos e como a manifestação destes se relaciona à cultura? Posicione-se criticamente em relação às colocações de Laraia sobre os instintos e a influência da cultura.
  4. De forma geral, qual o teor desses artigos da Declaração Sobre a Raça (UNESCO, 1950)? Como estes artigos se relacionam às idéias de Jared Diamond (1997/2005).
  5. Quais as semelhanças e quais as diferenças entre o conceito antropológico de cultura e o conceito psicológico de cultura?
  6. De acordo com Skinner (1953/2000), como poderíamos definir cultura?
  7. Diferencie cultura de práticas culturais?
  8. Como Laraia (1986/2006) discute a questão “influência da cultura versus natureza humana”? Forneça exemplos do texto para ilustrar sua resposta.
  9. Explique a seguinte frase relacionado sua explicação ao conceito de natureza humana: “Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhe parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros (Heródoto, 484-424 a.C., citado por Laraia, 1986/2006).”
  10. De acordo com Laraia (1986/2006), seria correto dizer que o homem é produto do seu meu? Justifique sua resposta apresentando elementos do texto.
  11. Por que Diamond (1997/2005) afirma que muitas das tentativas de se explicar a desigualdade entre os povos são racistas? Exemplifique sua resposta.

Referências bibliográficas

Bodley, J. H. (1994). An anthropological perspective. Cultural Anthropology: Tribes, States and the Global Syste. Disponível: http://www.wsu.edu:8001/vcwsu/commons/topics/culture/culture-definitions/bodley-text.

Cabral, A., & Nick, E. (2000). Dicionário técnico de psicologia. São Paulo: Cultrix.

Diamond, J. M. (2005). Armas, germes e aço: Os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record. (Originalmente publicado em 1997).

Ferreira, A. B. H. (1986). Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Huffman, K., Vernoy, M. & Vernoy, J. (2001). Psicologia. São Paulo: Editora Atlas.

Laraia, R. B. (2006). Cultura - Um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge ZAHAR Editora. (Originalmente publicado em 1986).

Skinner, B. F. (2000). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martin Fontes. (Originalmente publicado em 1953).

Skinner, B. F. (1983). O Mito da Liberdade. Tradução de Elisane Rebelo. São Paulo: Summus Editorial. (Originalmente publicado em 1971).

Nota: Partes deste capítulo foram originalmente publicadas na dissertação de mestrado da primeira autora: Lé Sénéchal-Machado, V. (2007). O Comportamento do Brasiliense na Faixa de Pedestre: exemplo de uma intervenção cultural. Dissertação de mestrado, Universidade de Brasília-DF.

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